1º Conto: Tempos de Renascer


Tempos de Renascer


             O recado da vida passa tão depressa pelos nossos olhos que antes mesmo que nos demos conta, ele já passou.
          Foi assim que dona Maria se sentiu ao sentar pela enésima vez naquele estofado branco, esperando, junto à melancolia do ambiente a notícia do fim. Por seus olhos marejados, ela via mulheres de todas a idades, todas quietas, tensas, acompanhadas por filhos, parentes ou amigos, mas sozinhas em suas mentes vazias, em seus medos íntimos, afundadas em seu sofrimento diário.
            De onde estava, via mães que carregavam crianças ao colo, crianças que amavam suas mães independendo do cabelo que caísse, da palidez do seu rosto, do frio de suas almas. Via pequenas criaturas, que entendendo ou não pelo que suas deusas passavam, as olhavam com doçura, tristes e encantadas pelo choro silencioso dos pais.
            Sob seus olhos, mirava os amigos fiéis, companheiros em um momento tão íntimo, estivessem lá por pena ou amor, eram verdadeiros anjos ao segurar a mão dos ventres feridos. Maria sentia seus olhos lacrimejarem, sentindo no escorrer de seus olhos a solidão de sua vida.
            Era a única sozinha; todos tinham alguém ao lado, todas, pelo maior sofrimento que fosse, se viam seguras pelos abraços amigos, choros infantis, carinhos e afagos calados.
            Então seus olhos passaram e pela grande janela que expunha todo o magnífico pôr do Sol, era estranho como havia demorado em perceber as maravilhas à sua volta. Haviam sido tantos anos de trabalho, tantos anos sem descanso em madrugadas perdidas: pelos carros do ano, pelas roupas mais caras. Momentos trocados, em que recusou um abraço, um beijo, um carinho.
            Lágrimas desceram mais intensamente, molhando seu rosto à medida que lembrava de seus meninos já crescidos.
            Era estranho como lembrava tão pouco. Tudo em sua mente eram os aniversários não festejados, as aventuras perdidas, as férias de uma semana. Perguntava-se quantos momentos havia perdido com seus filhos: eram incontáveis os beijos, as brigas apocalípticas, os “mas” falados, os “e” negados, as declarações apaixonadas das quais sentia falta.
            Assim seu coração se apertou, maltratando-a com a idéia de que seus filhos podiam não saber apreciar os momentos da vida. Assim ela se desesperou, imersa em seus pensamentos e lembranças de uma vida sem voz.
          Flutuou até ser chamada. Seu nome soou diferente das primeiras vezes; soava carinhoso, íntimo. Todos ali já a conheciam, estavam juntos desde sua primeira consulta, acompanhando todas as mudanças pelas quais Maria passou, todos ansiosos, desde o porteiro que a ajudou a subir as escadas até as enfermeiras e secretárias que acompanharam seus gritos de dor, seu desespero perante o que viria, sua luta para sobreviver.
            Assim, acalentada pelos olhares amigos, ela ergueu o corpo. Já não se sentia tão solitária, mas a cada movimento era lembrada do estado em que estava. Sob as roupas largas, sentia o tórax dolorido pela cicatriz que agora o marcava. Ali, onde antes havia seus seios, agora estava a marca de uma sobrevivente. Ela sabia disso, mas sabia o quanto havia custado.
            Passo a passo, seguia pelo corredor. Em sua cabeça as imagens frente ao espelho lhe consumiam, lembravam de como um dia seus cabelos haviam sido compridos e abundantes, de como se achava bonita, aparentando saúde e vida. Havia sido aquela uma de suas tarefas mais duras; era difícil ainda olhar para imagem de agora e se ver tão diferente. Não se sentia feminina, não se sentia bonita. Na imagem que via, enxergava um corpo estranho, um corpo marcado, tingido de dor.
            Aquela havia, sim, sido uma lição, fora por uma das mulheres de branco que tantas vezes seguraram sua mão frente às sessões de quimioterapia de quem ela havia aprendido: aquele, por mais marcado que fosse, era o seu corpo, parte dela, marcado pelas lutas, mostrando a coragem do sobreviver.
            Foi por essas palavras amigas que ela aprendeu a importância do porquê dela lutar - era simplesmente parte dela, era ela quem o veria todas as noites, teria afinal de encontrar alguma feminilidade, algo para gostar e amar.
            Assim, levada pela correnteza, ela sentou-se sobre a poltrona de couro, para ela olhava seu tão paciente médico, entre cumprimentos sérios e olhos sobre os exames. A sala tomou-se num suspense, sensação que se seguiu quando a mão fria averiguou o que seria seus seios, percebendo a cicatrização. Era estranho; sob aquelas mãos frias ela sentia-se protegida e vulnerável. Fôra ali, naquele mesmo consultório, que ela recebeu a primeira notícia, palavras sérias e ausentes, palavras que selaram seu destino, vindas de um rosto calado que agora se iluminava em um sorriso grandioso, sorriso menino, que contagiou, esquentando o ambiente, acalmando Maria.
            Nesses dois anos de tratamento, havia aprendido tanto, eram os ensinamentos dos pequenos detalhes, do milagre da vida, da chance de poder continuar. Reflexão dos valores da saudade. Assim, os dois se abraçaram - há muito Maria não se sentia tão feliz.
            Então, após contagiantes e discretos adeuses, ela se despediu, e abrindo as portas da liberdade, viu seus filhos, seus netos que observavam sobre o capô do carro a noite nova, e sentiu-se vitoriosa, ela sorriu. Finalmente, após tantos anos, tanto tempo distante, ela conseguiu sua tão sonhada alta: Maria estava curada!



Autor: Felipo Bellini Souza          Objetivo: Antologia Esperança RS       Criação: Cidadela Editorial, 2009                               Contato: felipobellini@yahoo.com.br
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