1ª Crônica - Um Banco Andrógeno

Um Banco Andrógeno

                Aquela era mais uma das tardes em que seu João passava sentado no banco da Praça das Flores, acompanhando displicentemente os que passavam enquanto lia as manchetes de sua tribuna diária. Em particular, naquela segunda-feira, ele tinha ao seu lado alguém que teimava em tentar roubar o ar que circundava seu banco. Incomodado pela presença daquele energúmeno, que podia ter escolhido outro dentre tantos bancos ao redor, seu João sentiu-se na obrigação de puxar papo.
                Armado de uma acidez que lhe era usual, rapidamente buscou um alvo infante para usar como exemplo. Com leves tapinhas na perna vizinha ele sorri ao mesmo tempo em que estreita os olhos por trás das lentes amareladas de seus grandes óculos e diz:
                -- Diga, o que acha do jovem a frente de calça jeans e cabelo curto na loja de sapatos femininos, é homem ou mulher? – Disse ele esperando uma boa gargalhada como era o costume dos taxistas do bairro.
                -- É mulher! – falou a pessoa com um seco na voz – Minha filha senhor!
            Se sentindo mal pela forma de como começou sua brincadeira, seu João tenta reverter ainda perplexo:
                -- A, me desculpe senhor, não sabia que era pai de alguém tão jovem...
               -- E eu não sou – disse com a voz ainda mais ofendida e cheia de desprezo ao mesmo tempo em que se levantava - sou a mãe!

E mais uma vez o seu joão conseguiu o que queria, se não a prosa o oxigênio...

Autor: Felipo Bellini Souza          Criação: 25/08/2011 15:15           objetivo: felipobellini.blogspot.com
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