3ª Crônica - Equívocos

EQUÍVOCOS
Júlia estava em um momento muito bom da vida, saia todo o dia, sempre tinha um jantar com amigos, um cinema pra tirar o stress, e a tradicional festa no final de semana que muitas vezes começava na saída do trabalho e terminava no boteco na esquina do mesmo tentando recompor-se do estrago para não se encrencar.
Naturalmente, depois de tantas saídas e paqueras ela arranja um bom companheiro, daqueles que o “start” inicial é reclamar do barman que troca às bebidas e no final funciona melhor que qualquer bombril. Sempre esta acessível, topa todas as festas, tem ótimo gosto para filmes, sempre conhece as pessoas e tem convites para todas as matines que Júlia já ouviu falar.
         Como todo o bom relacionamento, as primeiras semanas foram ótimas, logo vieram os meses, e então passou o ano. Loucuras e festas a parte, já fazia um ano que Júlia saia com o paquera, e eles nunca, nunquinha haviam se beijado ou se quer encostado de uma forma mais quente se é que vocês me entendem. Então Júlia passou a desconfiar, 1º, como toda a mulher preocupada pensou: “O que há de errado comigo?” Depois afirmou: “Nada! Eu sou linda, jovem, cheia de amor para dar e muito satisfeita financeiramente.” E ainda depois, enlouquecida do juízo, decide: “Ele é gay!” Afinal ele não apenas tinha ficado sem ela como também não havia pego ninguém. Ops! Mas se fosse por isso, ela também não havia ficado com ninguém. Será que ela realmente tinha problemas?
         Para responder sua pergunta, Júlia lança a seguinte enquête para suas “ex-amigas” de farra, aquelas que depois do Leo perderam um pouco a importância. “Amigas, amigas, estou aqui porque ouvi boatos, então quem ai já viu o Leo, aquele, lembram, de olhos azuis, que esta sempre em todas as festas e dirige BMW ultimo tipo ficando com alguém? Se já quem? Quando? Se não, vocês pensam que ele é?”
         Todas as suas amigas, tinham algo a falar, uma sabia de uma lenda que ele sustentava uma senhora na zona sul, outra que ele tinha esposa doente e saia para as farras como terapia, outras mais alegres diziam que era sim gay, daquele tipo mais discreto e eram contrariadas por terceiras que o achavam apenas educado e muito gente boa para ficar de galinhagem, diziam que era homem para casar e ter filhos enquanto as eufóricas o chamavam do discreto ao pervertido.
         Numa dessas quando o debate se espalhou e chegou aos ouvidos da gerente da repartição, Júlia se meteu em uma tremenda enrascada, a gerente que além de ser um tipo fogo na língua, era radical defensora de todos os tipos que possam ser inclusos nos tipos glst... pbkstf... Tipos e tipos, enrascadas em enrascadas ela sem sucesso tentou convencer que era uma enquête inocente, sobre um amigo e não uma conversa preconceituosa e discriminatória do tipo que se faz quando estão querendo discriminar e maltratar pessoas que não sejam héteros sexuais (motivo que também não se encaixa a essa crônica que tem apenas o sentido humorístico da coisa).
         Sem muito sucesso com sua enquête, e dando adeus às chances de supor um aumento no final do mês, Júlia decide que não da mais para ficar com naquele impasse.  Precisa descobrir o que diabos acontece com o homem e para isso ela usa de todos os artifícios e malicias que a brasileira tem.
         Convida o Leo para a famosa caminhada na praia, acompanhada de umas boas doses e tequilas e uma gostosa musica latina, tática infalível para pegar qualquer homem e ainda descobrir família, senha da conta bancaria e até o nome de solteiro da mãe da vitima.
         Seguindo seu plano infalível, ela se prepara vestindo aquele vestido com aquele decote, que marca o corpo inteiro e quando se dança sempre parece que vai rasgar no corpo de tão colado.
         Marca com ele as nove, o faz esperar ate as nove e vinte mesmo que já estivesse pronta as oito, chegam as dez e vinte e apenas para dar a ele aquela sensação de suspense fala eu hoje será um dia de grande surpresas.
         Após as tais doses de tequila e as danças, os dois exalando hormônios saem a rolar na areia, jogar água um no outro e finalmente se esfregar. Quando estão quase lá, nariz com nariz, um sentindo o hálito do outro, Júlia aproveitando de todo o movimento, ele para.
         Suspense no ar, eles continuam ofegantes e Júlia já não aquentando mais ela pergunta:
-- Você vem ou não vem?
-- É pra eu ir?
-- Claro porque não?
-- Então você não é?
-- É o que?
-- Ah você sabe...
-- Sei não.
-- Ah, achei que você fosse do tipo, sabe...
-- Não, mas você é?
-- Não, nunca, só estava gostando de você, tava curtindo a sensação.
-- Serio? Então você achava que eu era?
-- Pensava... E a marta?
-- Marta... – Do nada Júlia lembrou porque carregava dois drinques na noite do bar – Ah meu deus a Marta!
-- Que tem a Marta?
-- Eu não sei, aliais, eu sei, desculpa, sabe eu mudei de telefone, você ainda tem o telefone dela?
-- Tenho sim
-- Obrigado, se não fosse você eu nunca teria me lembrado da Marta.
         Julia se levanta morta de vergonha, cambaleia até o calçadão, estende o braço e entra num táxi, como ela poderia ter esquecido da Marta... Do cinema... 
Autor: Felipo Bellini Souza      Criação: 18/04/2009    Objetivo: Antologia Esperança
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