1º Ensaio Cultural: Os Filósofos de Rossellini (parte 1: Sócrates)

Hoje começarei a falar sobre os quatro filmes do diretor italiano Roberto Rossellini baseados na vida e na obra dos filósofos Sócrates, Santo Agostinho, Descartes e Pascal. A ideia era falar de todos os filmes em um post, até que eu percebi que ficou longa a minha exposição sobre Sócrates. Isso me levou a decidir que no próximo domingo falarei sobre todos os demais.

Estes filmes não são documentários e não são aulas de filosofia para leigos e tampouco são filmes exclusivos para entusiastas de filosofia, embora o fato de alguém o ser indubitavelmente fará com que aprecie melhor o filme. Aliás, mesmo que você não precise ser necessariamente um entusiasta, é necessário apreciar (ou no mínimo ter a paciência de aguentar) discussões de natureza filosófica, política e religiosa, entre outras, que estão por toda parte nas produções de Rossellini.

Os filósofos de Rossellini têm o seu lado humano tão explícito quanto sua genialidade. Vemos Sócrates em relação conflituosa com sua mulher; Descartes com seu hábito de trabalhar até bem tarde da noite, sempre acordando após o meio-dia; Pascal com sua frágil saúde; Santo Agostinho recebido com pedradas pelos radicais donatistas. Certamente, não são filmes somente sobre filosofia. São filmes sobre homens comuns que conseguiram pensar o que ninguém pensou antes. O primeiro destes homens é o Sócrates, que protagoniza o filme homônimo.

É impossível pensar em filosofia sem se lembrar de Sócrates. O seu pensamento é considerado o maior marco da filosofia antiga. Se antes de Sócrates predominava a filosofia naturalista, depois dele a metafísica ganhou um patamar de maior destaque. Perguntas como "o que é belo?", "em que consiste a justiça?", "o que é a alma?", hoje têm um campo de investigação que foi possível de se desenvolver a essa extensão porque um homem decidiu abrir os olhos dos atenienses da necessidade de definição de valores, superando o puro senso comum, que ele mostrou ser permeado de contradições em seus diálogos.

Sócrates nunca escreveu uma única obra filosófica. O lugar onde registrou a sua filosofia foram as próprias ruas atenienses. As principais fontes de informação sobre Sócrates são os seus discípulos Platão e Xenofonte. Historiadores, críticos literários e estudiosos de filosofia questionam até que ponto as ideias defendidas pelo Sócrates histórico são as mesmas que ele aparece defendendo nas obras dos autores supracitados. O que não se põe em dúvida é que ele não era um ateniense comum. Era questionador de forma que irritava a elite ateniense, ao ponto de ser considerado um "corruptor da juventude". Criou o método socrático, que consiste em um diálogo com um aluno para que ele resolva as contradições de seu pensamento, pensando por si mesmo, não pela sociedade.

O filme é baseado em toda a obra escrita sobre Sócrates, com vários de seus famosos diálogos apresentados de forma sucinta, porém essencial. O filósofo é apresentado a nós nos últimos momentos de sua vida. O Sócrates já velho, amadurecido filosoficamente, o que Platão nos apresenta em seus diálogos, é o que nos guiará durante o filme. Porém, não durante todo o filme.


Sócrates não está presente logo de início, como é bem do feitio de Rossellini atrasar a presença do protagonista, antes apresentando o cenário em que ele se encaixa. A primeira cena é o anúncio de um fim de guerra entre Atenas e Esparta. Por ordem de Lisandro de Esparta, os atenienses são obrigados a demolir os seus muros. A demolição dos muros nos abre, como uma janela, a visão para um plano geral do cenário ateniense, com a Acrópole acima de tudo. A seguir, vai um homem caminhando até chegar a uma casa de patrícios, onde está havendo um grande banquete no qual se discute a perda da guerra e estratégias que poderiam isso evitar. Logo depois surge uma cena de outra casa, na qual ainda não há qualquer sinal de Sócrates.

O filósofo surge em uma rua, derrubado no chão e sendo ajudado a se levantar. Não mostra qualquer sinal de irritação por ter sido atacado e já entra no mérito de falar sobre o pensamento ateniense a que se opõe. Diz que só há um bem, o conhecimento, e um só mal, a presunção de saber. Os atenienses, diz Sócrates, não têm ideias, mas opiniões sobre tudo. São demasiado orgulhosos para reconhecerem que mal conhecem as coisas. Ao ser inquirido sobre o que ele sabe a mais que os atenienses, Sócrates solta a sua famosa frase: "eu sei que nada sei".

Nessa atmosfera, permanece o filme até o final. A melhor descrição que consigo encontrar é: caminhada, diálogo, mais caminhada, diálogo, mulher de Sócrates briga com ele, diálogo, caminhada, diálogo, caminhada, diálogo, mulher de Sócrates briga com ele de novo, diálogo, sacrifício de galo, diálogo, caminhada, acusação, julgamento, diálogo, sentença, diálogo, bebe cicuta, fim. Dou destaque ao julgamento de Sócrates (adaptado de Apologia, ou Defesa de Sócrates) e aos últimos ensinamentos do filósofo em seu discurso final (adaptado de Fédon). Confiram abaixo um dos diálogos do filme.


Jean Sylvère encarna o personagem de forma que você tem certeza que aquele é Sócrates, não um ator a interpretá-lo. Você certamente não deixará de se divertir com a ousadia de Sócrates de pedir um prêmio a um tribunal que quer condená-lo. Também não lhe deixará inquieto a indiferença de Sócrates perante a morte. Ele literalmente morre pelas suas ideias, pois sabe muito bem que sua alma é imortal. Não tenho certeza quanto à imortalidade de todas às almas, mas a de Sócrates permanece viva no espírito da civilização ocidental e dificilmente irá perecer.

Para ver o filme completo no Google Videos, clique aqui.

Para adquiri-lo em DVD, clique aqui.

Autor: André Marinho          Criação: 18/12/2011        Objetivo: www.ligadosfm.com
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