Post Especial de Natal: 4ª Resenha Crítica e 2º Ensaio Cultural: Um Cântico de Natal e suas adaptações para o cinema



Saudações, leitores! Em clima natalino (o mesmo que atrasou minha postagem), falaremos de um clássico de Charles Dickes. O livro é Um Cântico de Natal (em inglês, A Christmas Carol).

A estrutura do livro é tal qual a de uma canção. É dividido em cinco capítulos, que o autor chama de estrofes.

A primeira estrofe fala sobre o espírito de Marley, velho sócio de Ebenezer Scrooge. A morte de Marley é a primeira coisa anunciada no livro e repetida várias vezes neste início. Marley morreu e Scrooge era o seu único amigo, seu único herdeiro e seu único sócio, mas a morte de Marley não abalou o velho Scrooge. A verdade é que nada abalava Scrooge. Tudo o que queria era manter o seu negócio e, por este motivo, assuntos mundanos não o interessavam e contato humano era um grande estorvo para si. O Natal, para ele, era uma grande tolice: a época em que pessoas já com dificuldades na vida abrem suas carteiras para tirar o pouco que têm para os outros.

Na véspera de Natal, Scrooge foi convidado por seu sobrinho para um almoço em família no dia seguinte, o qual ele recusou. Instituições de caridade também lhe pediram ajuda e ele recusou, dizendo que morrerem de fome no Natal até será bom, pois o excesso de população será reduzido. Já podemos ter uma visão bem precisa do caráter do protagonista. Mais tarde, em seu quarto, ele recebe uma visita inesperada: o fantasma do seu sócio Marley. Ele tem em si correntes e grilhões, que diz terem sido forjadas por ele mesmo durante sua vida. Ele está preso por livre vontade, ele diz, pois nunca em vida ele ousou ficar longe de seus negócios, de seu escritório. Nunca ousou ele estar próximo à humanidade e tê-la como o seu negócio. Adverte a Scrooge que seu destino será o mesmo se ele insistir na vida que mantém, assim como também revela que ainda há esperança para ele. A chance de redenção será garantida pela visita de três fantasmas.

Os três capítulos posteriores narram, cada um deles, a visita de um dos fantasmas. O primeiro é o Fantasma do Natal Passado (Ghost of Christmas Past), que mostra a Scrooge a sua juventude e tudo que colaborou para que ele se tornasse o homem que e é a razão pela qual ele odeia o Natal. O segundo é o Fantasma do Natal Presente (Ghost of Christmas Present), que revela a Scrooge várias diferentes cenas no Natal que está acontecendo, entre eles o pobre Natal do seu empregado Bob Cratchit, que tem um filho muito doente, o Pequeno Tim, que não pode fazer o seu tratamento devido ao baixo salário que Scrooge paga ao seu subordinado. O terceiro é o Fantasma do Natal Futuro (Ghost of Christmas Yet to Come), que mostra a Scrooge as consequências da sua mesquinhez para ele e para as outras pessoas, como o próprio Tim Cratchit, que tem um destino trágico.

No último capítulo ou estrofe, Scrooge acorda em sua cama ainda com a chance de mudar o seu destino. Se ele o faz ou não, vocês terão de ler o livro para descobrir!

O fato é que há muitas pessoas como o Scrooge. Todos nós temos esse lado um pouco egoísta, sempre ocupado demais para a família ou para os necessitados. O espírito natalino, no entanto, tem um poder transformador. Quando é Natal, somos mais caridosos e altruístas. A magia de Um Cântico de Natal não é a de nos mostrar este lado do feriado, mas também de ressaltar a importância da caridade e da da união familiar como um todo, que, em feriados como o Natal, momento em que não precisamos trabalhar, não custa nada.

Não sentimos diariamente o outro em sua dificuldade, tampouco pensamos normalmente que são as nossas boas ações que nos acompanharão, nos libertarão dos grilhões e correntes que construímos e nos tornarão queridos na vida e na morte, pois não temos um Fantasma do Natal Presente nem do Natal Futuro para nos mostrar isso na vida real. Contudo, ao ver estes fantasmas agir na ficção, os efeitos de sua possível existência todos entram na realidade. Sentimos em nós as consequências do futuro de quem pratica a ganância. Sentimos remorso por ignorarmos os nossos próximos, crendo que eles são para sempre, assim como Scrooge ignorou que precisava ajudar o Pequeno Tim.

O papel humanizador e sensibilizante da literatura, tão bem desenvolvido na obra de Dickens, é essencial e é uma das razões pelas quais Um Cântico de Natal tem relevância para ser lido e relido por gente de todas as idades, épocas e contextos merecendo um papel de destaque no cânone da literatura ocidental.

Além de ser moralmente elevado, carregando virtudes magníficas para todas as gerações que o conhecem e ser uma história que nos faz sentir, cito ainda outras razões pelas quais esse livro permanece entre os meus favoritos: a estrutura da obra é de grande originalidade; a sua simplicidade é marcante, não havendo espaço para prolixidade; a sua capacidade de sobreviver no imaginário popular é tão forte quanto a de Dom Quixote, sendo a primeira leitura de Um Cântico de Natal nunca de fato o primeiro contato com a obra. Afinal, quem nunca ouviu falar na história dos três fantasmas do Natal?

O livro foi adaptado para o cinema diversas vezes. Destacarei, dentre os mais de vários filmes baseados na obra, os cinco que eu conheço.

O primeiro é a O Conto de Natal do Mickey(Mickey's Christmas Carol), no qual cada personagem do livro é interpretado por um famoso personagem da Disney. A correspondência de personalidade de alguns deles cai como uma luva, como o Tio Patinhas(em inglês, Uncle Scrooge) no papel de Ebenezer Scrooge. Nada mais adequado.



O segundo é A Christmas Carol: The Musical de 2004, versão cinematográfica da peça musical baseada no livro. Um musical de um livro que é um "Cântico de Natal" no seu título e na sua estrutura é uma forma bastante válida e interessante de reinterpretar a obra. As canções são esplêndidas e interpretadas por um elenco de primeira, que inclui Kelsey Grammer(dublador do Sideshow Bob em os Simpsons e do Bola-de-Neve no filme de A Revolução dos Bichos) , Jennifer Love Hewitt, Geraldine Chaplin (filha de Charles Chaplin; Tonya Gromeko em Doutor Jivago). Confiram uma das músicas do filme, "God Bless Us Everyone".




O terceiro é o A Christmas Carol de 1984, estrelando George C. Scott. Considero-a melhor adaptação do filme para as telonas, devido à sua extrema fidelidade ao livro. Pode ser assistido na íntegra pelo YouTube, embora ainda sem legendas em português. Quem tiver condições de assisti-lo assim, faça! É um ótimo filme.




O quarto filme é o mais recente, chamada em português de Os Fantasmas de Scrooge, com Jim Carrey no papel principal. É a primeira representação em três dimensões do livro de Dickens e é divertíssima. Recomendo.




Por fim, apresento-lhes uma das primeiras tentativas de levar o Scrooge ao cinema, no A Christmas Carol de 1910, que é mudo tem somente 10 minutos de duração.



Espero que tenham gostado desta postagem! Um Feliz Natal para vocês e suas famílias! Próxima semana voltaremos com os filósofos de Rossellini!

Os que quiserem ler o livro podem baixá-lo aqui.

Autor: André Marinho          Criação: 25/12/2011        Objetivo: www.ligadosfm.com
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