3º Ensaio Cultural: Os Filósofos de Rossellini (parte 2: Santo Agostinho)

Este post é o segundo de uma série de três. Para ler o primeiro click aqui



Saudações, leitores! Perdoem-me o atraso da segunda parte do ensaio sobre a tetralogia dos filósofos de Rossellini. Hoje falarei sobre Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, e sobre o filme Santo Agostinho de Roberto Rossellini, sobre esse que é o mais importante filósofo cristão da antiguidade.

Na tetralogia, o filme de Santo Agostinho representa a queda da cultura clássica que veio a formar suas bases em Sócrates. O Império Romano, herdeiro desta cultura, está em decadência, marcado por um declínio cultural, invasões bárbaras e instabilidade econômica. É nesse contexto que Santo Agostinho surge para estabelecer um sistema filosófico mais adequado à sua época, reunificando o Cristianismo e trazendo uma nova visão à antiga fé e à Igreja, que ele definiu em como a Cidade de Deus, em contraste com a Cidade do Mundo, o Império Romano.

Agostinho de Hipona nasceu na cidade de Tagaste, província de Souk Ahras (hoje território da Argélia). Seu pai era pagão e sua mãe era cristã. A princípio, rejeitou o cristianismo e abraçou o maniqueísmo, que começou a abandonar somente 384, como professor de retórica, em Milão. Dois anos depois, converteu-se ao cristianismo. Agostinho narra da sua infância à sua conversão ao Cristianismo na sua obra autobiográfica Confissões . O filme de Rossellini não contempla esta fase, focando-se no Agostinho já maduro.

O filme se inicia, como é de costume de Rossellini, em plano geral, exibindo paisagens. Vários outros personagens conversam sobre a convocação do Bispo Valério. Depois de várias cenas e diálogos entre personagens secundários, finalmente vemos o Bispo Valério discursando. Ele fala de sua incapacidade de levar os valores cristãos aos pagãos e hereges, diante de sua velhice. Então, ele anuncia que nomeará bispo auxiliar e seu sucessor um homem de grandes feitos como sacerdote: Agostinho. O recém-nomeado bispo diz-se incompetente ao posto que lhe é oferecido, pois é um homem orgulhoso e de muitos pecados. Em respostas, muitos dos presentes se pronunciam dizendo que seria uma ofensa a Deus que ele recusasse a ser um bispo, pois ele que levou muitos deles ao caminho da Igreja. Ele aceita e os bispos prosseguem com o ritual de consagração. A partir daí, Agostinho se mostra o personagem principal do filme.

O filme é a princípio monótono, como o de Sócrates, tendo por base o diálogo. Agostinho aparece a conversar com os outros sacerdotes sobre questões da Igreja, sobre o caminho que cada um deles tomou para estar em Hipona, dentre outras coisas. São falas que nos situam historica e geograficamente no filme, como uma grande e prolongada introdução.


Depois, vemos o Agostinho mestre, falando sobre a simbologia das passagens bíblicas a seus alunos. Ele lhes fala sobre o ramo de oliveira trazido pela pomba à Arca de Noé e sobre os números presentes nas escrituras, até chegar ao tempo, que tem um lugar de prestígio na filosofia de Santo Agostinho. Diz ele que o tempo é constante e não se interrompe, escorrendo como um rio, e todos nós vivemos no tempo, enquanto Deus para além dele existe, pois sua natureza é a eternidade.

Em cena posterior, vemos Agostinho a discutir com os donatistas. Ele argumenta que é una e indivisível a essência da Igreja. Os donatistas, que querem uma tradição de santidade que não admite ou perdoa pecadores, vão contra o princípio cristão da caridade, diz Agostinho.

A violência e o radicalismo dos donatistas aparece e reaparece durante o filme diversas vezes. Eles se mostram muito mais numerosos que os cristãos católicos e reprimem a doutrina universal. Apedrejam um grupo de padres católicos que estão de passagem e ameaçam Agostinho por suas acusações de heresia a eles, mas ele permanece calmo, mantém as acusações e lhes diz que as portas da Igreja estão sempre abertas a eles, por mais que eles sejam hereges.

Um outro momento interessante do filme é quando Agostinho de Hipona discute com o tribuno Marcelino os valores cristãos da humildade, da caridade e do perdão no Estado romano, tendo como ponto de partida os hereges donatistas, que eram vistos como uma ameaça ao próprio Estado. Confiram abaixo a cena que descrevo:

Até hoje (talvez principalmente hoje), havemos de admitir, há magistrados e políticos tão incompetentes que tudo o que sabem é aplicar a letra da lei, ignorando os princípios morais por trás da sua função. Um pouco de Agostinho lhes faria bem.

O filme num geral é uma grande aula. Uma aula de duas horas sobre a decadência do Império Romano, sobre Santo Agostinho e sobre a Igreja Católica com os seus valores morais e fundamentos filosóficos, que o pensador que dá nome ao filme tanto contribui para interpretá-los tal como os conhecemos hoje. Afinal, se a Igreja Católica na história foi a base de nossa civilização e Santo Agostinho teve um papel fundamental no desenvolvimento histórico do Cristianismo, este é um filme imprescindível.

Desnecessário dizer, depois de tudo que falei, que é um filme recomendado a qualquer entusiasta de filosofia, teologia ou história. Necessário mesmo é dizer que é um filme recomendado até mesmo a quem não se interesse por estes temas, seja ou não cristão, pois certamente ele lhe engrandecerá enquanto indivíduo com o tanto de conhecimento que o permeia. Roberto Rossellini fez um ótimo trabalho com toda a pesquisa histórica para produzir este filme. Mas, eu dou um aviso final: é um filme cheio de diálogos e com pouca ação!

Em outra semana sairemos do Império Romano decadente e vamos para a Revolução Científica com Pascal e Descartes, fechando os três posts sobre a tetralogia de filmes de Rossellini sobre filósofos. Até mais!

Santo Agostinho de Roberto Rossellini pode ser adquirido pela Livraria Cultura.

Ler também:

Confissões, de Santo Agostinho.

De Magistro (Sobre o Mestre), de Santo Agostinho.

Santo Agostinho, de Huberto Rohden.

Autor: André Marinho Criação: 15/01/2012 Objetivo: www.ligadosfm.com
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