4° Conto - Tempos De Terror


TEMPOS DE TERROR

Cristina brincava sozinha na rua quando sua mãe gritou seu nome, no céu a lua estava branca indicando ser mais cedo do que de costume, mas ela sabia que estava na hora de despedir-se de seus jogos e recolher-se.
            Enquanto virava a esquina de casa, percebia as ruas mais desertas do que de costume; não havia a alegria comum daquele lugar, e o silêncio ainda deixava tudo mais sombrio.
            Entrou em casa sendo puxada por sua mãe. Recebia uma bronca sobre o seu vagaroso andar e sujeira de sua roupa, corpo e unhas.
Geralmente ela saia para banhar-se, mas dessa vez sua mãe mandou trocar-se e se ajoelhar para rezar.
            Não havia esperado o jantar, não havia mandado banhar-se... A casa estava tão quieta quanto à rua e seu pai, que sempre estivera lá antes do sol se pôr ainda não havia chegado.
Sob o rosto de sua mãe uma marca sombria e melancólica transpassava e naquele ambiente de suspense a menina orava, soltando sussurros enquanto se questionava sobre o jantar.
            Do lado de fora, homens pouco esperançosos observavam a mata que cercava o vilarejo, aguardando o improvável com suas armas de ferro frio na mão e seus corações doloridos sob as roupas.
            Foi assim até que o silêncio da noite que tanto os consumia em suspense foi quebrado pelo farfalhar das árvores, que expulsava os pássaros e os fazia tremer.
            Com seus terços as mulheres marcavam seus pulsos, chorando a cada tiro que escutavam, enquanto seus homens tentavam sem sucesso interromper o avanço da massa cinzenta que subia pela colina, saindo da grande mata em direção às suas crianças e mulheres.
            Eram criaturas oriundas diretamente do inferno! Mortos que andavam carregando seus próprios corpos, sem almas, sem mentes. Eram cadáveres ambulantes que tiravam a calma da noite com seus grunhidos macabros e assim subiam as colinas, levando aqueles mais corajosos que se jogavam contra a massa, desesperados pela salvação de famílias inocentes.
            Sob o réquiem, fiéis se reuniam na capela, trancando portas, orando repetidas preces. Ali, todos acreditavam que aquele era o juízo final. Não havia como sobreviver. Aquela praga havia consumido as grandes cidades e, assim como tombaram os grandes exércitos, a cidade sumiria sob o fedor da putrefação.
            Nas casas vizinhas, mães e crianças seguravam as portas de madeira, tentando desesperadamente segurar os corpos que tombavam pouco a pouco, levando com eles as casas.
            Cristina havia sido colocada dentro do armário, fechada pela sua mãe, que gritava maldições e pedia forças para continuar impedindo os monstros de invadirem o recinto.
            Do lado de fora, os poucos homens que haviam tentado lutar e sobrevivido fugiam para suas casas, tentando instintivamente salvar algum que fosse - de preferência, seus filhos...
E chegando à porta de suas casas, os que ainda não rastejavam junto aos zumbis os enfrentavam com machados, tentando afastá-los inutilmente.
            Assim ocorreu com Jonathan, que recuou até o outro extremo da cidade, na esperança de que os mortos ainda não tivessem alcançado sua família. Ele não se perdoaria se algo acontecesse à sua filha, à sua mulher.
            E tropeçando entre os mortos, ele passou pelos amigos infectados, pelo padre que atravessava a porta da sacristia abandonando seus fiéis, correndo enquanto via o fogo que acendia se alastrando pelos barracos humildes.
Aquele era o último ato; todos sumiriam em uma fogueira de vivos e mortos, sendo soprados em apenas cinzas, sem história, como havia ocorrido com Nova York, Paris, São Paulo, Luxemburgo, e tantas outras.
            Não, aquilo não poderia acontecer, não com sua menina, não com ele. Não seria justo...
            Em casa, Cristina ouvia a mãe gritar... Já não eram mais ameaças ou maldições - eram gritos de desespero, que se misturavam à fumaça que invadia as portas do armário. Gritos que faziam a menina chorar, gritos que se tornaram gemidos, que se tornavam únicos à medida que o calor subia.
            Então os gemidos começaram a se tornar pedidos de socorro quase mudos, e o coração da menina apertou. Embora a ordem de ficar tivesse sido dada, não conseguia mais ouvir a mãe gritar.
Desesperada, ela saiu do armário se esquivando das chamas que subiam pelas paredes, e quando seus grandes olhos encontraram os de sua mãe, lágrimas caíram...
            Sua mãe se contorcia, suas veias haviam se dilatado e poucos eram os trapos que cobriam seu corpo. Ela babava, sua pele era amarelada e doentia. Cristina queria abraçar sua mãe, queria dizer que ela não estava sofrendo, que a amava, que a queria e que tudo iria acabar bem.
Mas as coisas não aconteceram assim... Sob os olhos da pequena aldeã, as unhas de sua mãe tornaram-se pretas e a pele, já amarelada, tornava-se cinzenta na medida em que presas eram expostas em sua boca agora imunda e deformada e sua mãe sumia, deixando de amá-la para se tornar um bicho que a perseguiria.
            E os ventos sopravam do lado de fora. Um homem avançava perante os mortos vivos, abrindo caminho com uma enxada. Sua casa queimava, mas ele precisava salvar sua família...
E ao mesmo tempo uma mãe que sumia reapareceu implorando à sua filha, querida, amada, que a matasse enquanto havia tempo.
            Eram as poucas palavras conscientes dentre outras tantas impossíveis de se entender. Um pedido doloroso, mas necessário e que se concretizaria na medida que o facão sem sua mão cortasse pescoço de sua mãe da pessoa que ela mais amava na vida.
            Entre os espasmos de sua mãe Cristina falou que a amava e que se importava enquanto erguia a arma e fazendo o metal assobiar no ar ao mesmo tempo em que a parede caia espalhando chamas, queimando a pele viva e a carne morta...
Aquele homem que se jogava pelas paredes incendiadas procurava meio a fumaça sua filha, agora caída, desacordada. Ele a segurou em seus braços, suja de um sangue grosso, de um odor que se sobressaía à fumaça. Segurando-a, viu uma cabeça familiar dentre os escombros e duas lágrimas umedeceram seu rosto. Ele entendia o sacrifício de sua filha.
            Chorando, ele abriu passagem pelo fundo das casas, esgueirando-se pelos escombros, correndo por cima dos mortos empilhados. Percorreu a fumaça, carregando sobre seus ombros sua pequena, tão nova, até que chegou a estrada que saia da cidade.    Mas aquele lugar estava obstruído, era um exército de retardatários que caminhavam vagarosos na intenção de consumir o que pouco restava da cidade.
Fugindo da morte procurou outro caminho, e percorrendo a estrada se dirigiu ao poço da cidade, rezando para ter sido o primeiro a pensar nisso...
            O poço era profundo, encoberto por um grande muro de cimento que o contornava, inatingível para criaturas incapazes de escalar. Ele subiu, deixando a enxada para trás e colocou sua filha sobre o elevador manual que descia até onde poucos pegavam água. Era estreito demais para os dois. Ele amarrou a menina à corda para que ela não caísse no poço, e a desceu, pedindo a Deus que sua filha tivesse forças para subir depois, se ele não puder voltar.
            Então, Jonathan olhou para os destroços inflamados. Havia outros para salvar, havia outros que sobreviveriam, pois ele garantiria isso! Então, elevado por um sentimento temerário, pegou seu facão, pulou sobre o muro do poço e sumiu nas chamas.


Autor: Felipo Bellini        Criação: 01/09/2008         Objetivo: Criação independente - Mundo Drama - Revista Acólitos - Revista: Nova Noite - Revista Caverna - Revista: Rock Brasil - www.ligadosfm.com

Obs: Este é um conto muito antigo, que não repaginei nem nada para postar aqui. Então me perdoem os prováveis erros de português e estilística. Nele, escrito aos meus 17 anos, tinha a intenção de fazer uma estória de zumbis mais dramática, me falem o que vocês acham!
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