5º Ensaio Cultural: Utopias e Distopias

Saudações, leitores! Na resenha de ontem, eu lhes apresentei Anthem e defini o livro como uma distopia. Muitos de vocês devem ainda estar se perguntando o que seria uma distopia. A princípio, digo que seria uma anti-utopia, mas tenham calma, pois explicarei isso melhor desde o início. Desde a definição de utopia.

A palavra "utopia" apareceu pela primeira vez no livro Utopia, de Thomas More, em que se descreve uma ilha fictícia no Oceano Atlântico na qual existe a propriedade comum de bens e onde todos os cidadãos usam a sua força de trabalho o quanto podem. Vivem em casas iguais, todos trabalham e têm um número fixo de horas de trabalho por dia, mudam-se de casa periodicamente para não ficarem habituados a viver em um mesmo mesmo lugar e a educação é confiada a padres e estudiosos. Por ser a sociedade utopiana perfeita e improvável, a palavra "utopia" assumiu o significado de "lugar perfeito" ou "lugar improvável", e assim surgiu também o adjetivo "utópico", que se refere a algo belo em teoria, mas impraticável.

A verdadeira mensagem da Utopia de Thomas More é um pouco controversa. Alguns críticos dizem ser uma crítica à Europa do seu tempo, pois em diversas passagens há a presença do contraste entre Utopia e Europa. Como exemplo, podemos citar uma parte em que se fala que todos trabalham na Utopia, enquanto na Europa muitos vivem ociosos pela renda da terra, aposentam-se sem razão ou são religiosos vagabundos que se recusam a trabalhar. Outros estudiosos dizem que Thomas More buscava realmente um conceito de sociedade perfeita que fosse aplicável. Eu estou com os primeiros e penso em Utopia como uma sátira, a começar pelo seu nome, que em grego significa "não-lugar" ou "lugar que não existe". Outros lugares mencionados no livro têm significado de não-existência, como Achora ("não-lândia", em tradução livre) e Polyleritae ("muita bobagem", em tradução livre). Em inglês, Utopia se pronuncia da mesma forma que Eutopia, que significa "lugar bom" ou "lugar feliz". O próprio More dá margem a essa interpretação em um adendo ao seu livro, no qual ele diz que o nome que merece a ilha é eutopie, não utopie (em inglês moderno seria utopy e eutopy, mas eu mantenho a grafia em Middle English dos textos originais).

Se a Utopia de More é mesmo somente uma crítica da moral do povo europeu, não um projeto de mudança política, seu caráter é essencialmente moral, portanto, educador. A moral, entendida por Santo Agostinho como "a arte de conduzir a vida", não pode ser forçada por outrem, pois é uma arte e como a arte é aprendida pela acumulação dos conhecimentos de outros artistas e pela sua própria experiência. Portanto, a Utopia de Thomas More pode nos transformar apresentando-nos nossas falhas e como agem os que não a possuem, não apresentando-nos um sistema político perfeito.

Séculos se passaram e muitos quiseram repetir a experiência do livro Utopia: idealizar uma sociedade perfeita. Socialistas útopicos escreveram mil floreios de como deveria ser o mundo perfeito, chegando até mesmo a acreditar ser possível transformar toda a natureza humana e criar um novo homem. Mas, algumas pessoas nem precisaram pensar numa sociedade perfeita. Precisaram apenas pensar em políticas "perfeitas" que nunca antes tinham sido postas em prática. Os resultados foram desastrosos pelo excesso de otimismo.

John Stuart Mill, em um discurso em 1868 no parlamento britânico, criticava medidas do governo inglês sobre as terras da Irlanda e pela primeira vez se falou em distopia. Ele disse: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-las [as políticas inglesas] utópicas; deveriam em vez disso ser chamadas dis-tópicas ou caco-tópicas. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável". Esta é uma forma adequada de ver algumas políticas inovadores que parecem muito boas e que dão grande entusiasmo (vulgo utopias): pensar nas suas piores consequências e nos seus erros fatais que podem desabar todo o sistema idealizado em que estão.

Diante de todo o exposto acima, a Utopia de Thomas More não é tão diferente da sociedade representada em Anthem. Mas se compararmos as duas no plano de bem e mal, pode-se dizer que Anthem (o mau lugar) é a distopia e Utopia (o bom lugar) é a utopia ("Oh, sério que Utopia é a utopia?"). E no que elas se diferenciam? Ora, o sistema político de Anthem tem uma falha grave que faz aquele contexto social ser lamentável, apesar da sua máscara utópica! Já em Utopia, temos uma perfeição tão grande que parece ser mentira. (E sabe por que parece ser mentira? É porque é mesmo! Aquilo nunca funcionaria!)

Quando perguntamos a alguém "como seria o mundo perfeito?" dificilmente nos passa a palavra utopia na cabeça, embora seja exatamente "qual é a sua utopia para o mundo?" que estejamos realmente perguntando. Mas, quantas vezes paramos para pensar se o mundo ideal é mesmo alcançável e não pode trazer, na verdade, o pior do mundos possíveis ao tentá-lo? Será que ao querer praticar uma utopia, não estamos realmente à beira de criar uma distopia? É isso que a literatura distópica busca: desmascarar utopias e mostrar terríveis falha que podem torná-las piores que a própria realidade em que vivemos.

Enfim, utopia pode ser considerada uma sociedade perfeita, ou um plano para alcançá-la. Há, no entanto, uma outra espécie de utopia na literatura, na qual eu enquadro a Utopia de Thomas More e A República de Platão: a utopia moral, cujo caráter é de formação. Já a distopia representa uma sociedade que esconde suas graves falhas sob uma máscara de utopia, ou seja, aparência de sociedade perfeita ou de um processo para alcançar a perfeição. Exemplos famosos de distopias na literatura são 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Ainda falarei sobre estes livros nas minhas resenhas. Esperem para ler!

Espero ter dado a vocês uma boa introdução ao tema das utopias e distopias. Pretendo voltar a falar do assunto, pois ele muito me interessa e eu sei que eu teria muito a compartilhar com vocês, fiéis leitores. Uma boa semana a todos! Vejam, no próximo domingo, o último post sobre a tetralogia dos filósofos de Rossellini. Lembrem-se de deixar comentários para participar da promoção "Comentar te leva ao cinema!".

Autor: André Marinho Criação: 29/01/2012 Objetivo: www.ligadosfm.com

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