7º Mundo Cão - Com Tão Pouco, Tanta Cultura...

Eu não estava errado. Até pensei que estivesse exagerando ou pensando alto demais quando me referia a Natal como um centro escasso de cultura e de opções de lazer para o público. Temos sempre as mesmas alternativas, tomamos as mesmas decisões e sempre fazemos a mesma coisa. Nossas mudanças estão mais do que saturadas, uma gordura transgênica que corrói as vias arteriais da capital, vias estas que levam aos pontos de lazer – geralmente, voltados para todos os públicos, desde que não se interesse por cultura potiguar.

Estou, neste exato momento, em São Luiz, capital do Maranhão, estado com o mais baixo IDH do país, da baixa inclusão digital, da pouca qualidade sanitária e da péssima distribuição de renda. Contudo, uma cidade com tamanho potencial, mesmo governada por uma oligarquia que se preserva no poder há mais de meia década (não diferente do RN), em que uma de suas ilhas, que compõe o impressionante arquipélago do litoral maranhense, é nada mais do que propriedade particular do Senador José Sarney e família (dizem as célebres línguas que a mesma o fora obtida por intermédio da lei do usucapião), com os seus mais de 1 milhão de habitantes, é um verdadeiro canteiro de obras que parece não ter fim. Sobretudo, no seu centro histórico e nos pontos estratégicos os quais se tornam destinos fáceis para quem busca opção de lazer, cultura e badalação noturna.

Não é uma cidade lá organizada, bem estruturada ou planejada. Porém, não é difícil de se encontrar cines ‘cults’ com as mais diversas obras da sétima arte as quais não ingressam nos cartazes dos maiores cinemas da cidade. Cines comerciais. Uma de suas sessões apresenta um filme do Almodóvar, com Antônio Bandeiras no elenco, ao preço de R$ 10,00 (inteira) ou R$ 5,00 (meia), e pode ser vista em um dos salões do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, instalado em um dos mais de 200 casarões antigos do Centro Histórico de São Luiz. Bem na rua de trás, existem vários museus de exposição da cultura e do fatos maranhenses, com telas pintadas a óleo com mais de 100 anos de história, esculturas e exposições fotográficas com personalidades da cultura negra maranhense, da Umbanda ao miserável que vive às margens da BR-316, imagens e curiosidades dos 21 anos de ditadura militar, além de biblioteca pública, tudo isto exposto no  Museu de Artes Visuais, ao preço único de R$ 2,00.

A noite, sobretudo das quintas-feiras aos sábados, este mesmo centro histórico se transforma em point de balada, com vários bares abertos ao som de Samba, Reggae, Rock e ritmos populares do próprio Maranhão, ao preço de alguns decibéis a mais estourando os ouvidos, uma infinidade de maranhenses e muitas mesas nas calçadas regadas a cervejas, caipirinhas, tira-gosto e o mínimo de violência de qualquer natureza.

Para natalense entender, é como uma imensa Casa da Ribeira distribuída no trecho que vai da Rua Chile à Praça Vermelha. A propósito, falamos de um centro histórico, que, mesmo abandonado pelo poder público, é apreciado pela população como um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade. E o é.

Me pregunto: por que Natal, com pelo menos o dobro da infraestrutura ludovicense, melhor planejada, estrategicamente (bem) localizada e menos esburacada tem que ser diferente? Não faltam recursos, gente interessada na promoção cultural e até ofertas de propostas de alto nível, entretanto, o nosso centro histórico parece mais uma lombriga, quase morta com tamanha falta de cuidado e atenção das nossas autoridades, escasso de promoções e, consequentemente, de pessoas, e traduzido a becos escuros, abandonados, que servem mais para motel a céu aberto, banheiro público para carroceiro e pontos-alvos para assaltantes e traficantes, cheiradores de cola ou pessoas do gênero. Por que, Natal, se todas as sextas-feiras do ano, o Centro Histórico de São Luiz se transforma em um verdadeiro Circuito Cultural Ribeira?

O natalense tanto se gaba por viver onde muitos lá de fora passam férias, por residir em uma cidade que, de tão bela, é centro turístico, radiante e cheia de qualidade de vida... Mas, e a cultura, cadê? Não quero dizer que Natal não tenha cultura ou história... Tem sim. O que falta é boa vontade para explorá-la e leva-la ao seu público. O natalense precisa ter resgatado o seu valor agregado, tão desvalorizado por si mesmo.

Pois o turista não busca sol e mar, tranquilidade e poesia industrializada o tempo inteiro de suas férias. Ele quer saber da nossa história, das nossas origens e da nossa formação cultural – o que faz entender o nosso sotaque, a cor dos nossos olhos e o porquê de misturarmos ginga com tapioca justo em um lugar nota zero na preservação de comunidades indígenas remanescentes desde a colonização europeia. É da anfitrialidade que falo...

Natal do Rio Grande do Norte, com tanta infraestrutura e recursos, não tem a metade do que São Luiz do Maranhão dispõe ao seu povo e a quem quer ver (e neste meio estão os turistas): cultura, história e vida. Porque quem faz da própria casa patrimônio da humanidade não é a UNESCO ou o presidente dos EUA, mas os próprios donos desta casa.

Por: Andesson Amaro Cavalcanti
Em: 24/01/2012
Objetivo: www.LigadosFM.com

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