12ª Resenha Crítica - Drácula


Saudações, leitores. Em clima carnavalesco, numa atmosfera cintilante, colorida, alegre e sonora, com carros alegóricos, papangus e bebedeiras, eu venho lhes trazer algo para quebrar o clima. Eu venho lhes trazer vampiros. Não vampiros carnavalescos, que são sensíveis e cintilam como se estivessem cheios de lantejoulas. Falo de vampiros de verdade, aqueles de atitudes cruéis com requinte aristocrático. Apresento-lhes um livro do qual todos já ouviram falar, mesmo que nem todos o conheçam pessoalmente: Drácula. Publicado em 1897, o clássico de Bram Stoker (1847 - 1912) é uma das mais importantes obras da literatura ocidental.

Drácula é um romance epistolar, isto é, composto de uma série de cartas, diários e anotações. Este é um gênero que nos deixa muito mais próximos do enredo, dando um maior grau de realismo. As primeiras anotações às quais temos contato sã as do diário de Jonathan Harker, no qual ele escreve sobre sua viagem até o castelo do Conde da Transilvânia, pelo qual ele foi contratado para prestar auxílio jurídico. O Conde Drácula, de uma fisionomia bastante peculiar (pálido, de orelhas pontudas, traços expressivos), é um homem fino, inteligente, simpático e hospitaleiro, que ganha a simpatia de Harker logo no primeiro contato. Porém, muda o sentimento de Harker de admiração a terror quando ele percebe coisas muito suspeitos sobre seu anfitrião e sobre a sua morada. E quanto mais ele percebe isso, mais ele sente que está preso ao castelo e precisa encontrar um bom momento para fugir. Esta primeira parte do livro já cumpre o papel de prender o leitor no primeiro momento. É óbvio que um leitor dos dias de hoje sabe que o Drácula é um vampiro, mas esse fato não muda em nada todo o suspense presente nas páginas do diário de Jonathan. "O que será que vai acontecer com ele?"

Poucos dias depois de escrita a última página do diário de Harker, surge no porto de Whitby, na Inglaterra, um barco sem tripulação, no qual se encontra somente o corpo de seu capitão, que em seu diário de bordo escreveu estranhos fatos que ocorreram na embarcação, atribuídos a uma presença maligna. A carga do barco continha somente sacos com areia da Transilvânia Na mesma cidade portuária está Mina Murray, esposa do advogado, em visita sua amiga Lucy. Lucy é uma moça meiga, alegre e bonita. Por estas qualidades, é uma mulher bastante admirada e chega a, em um certo dia, receber propostas de casamento de três pretendentes que são melhores amigos! Depois de aceitar a proposta de um deles, ela começa a se sentir bastante doente. Um dos seus velhos pretendentes, Dr. John Seward, um psiquiatra, é amigo o Dr. Van Helsing, médico holandês que sabe que muito bem que a doença de Lucy não é algo que pode ser tratado por medicina convencional. Fãs de House certamente admirarão o Dr. Van Helsing, que, em suas soluções aparentemente arbitrárias tem uma clara razão. A maior diferença entre os dois é que Helsing é um homem de grande empatia. Um médico que ampara os seus paciente e respectivos entes queridos da melhor forma possível. Uma outra diferença é que Helsing é caçador de vampiros.

O que faz de Drácula um dos grandes clássicos foi a imagem duradoura que deixou na cultura ocidental. Assim como podemos não conhecer Um Conto de Natal, Dom Quixote ou Os Três Mosqueteiros e ainda assim captá-los nas conversas cotidianas, o mesmo vale para Drácula. O vampiro, que antes era mais uma superstição dos povos medievais, foi trazido por Bram Stoker para a modernidade da Inglaterra vitoriana e alcançou todo o mundo ocidental e a contemporaneidade. O Conde da Transilvânia tornou-se a própria imagem clássica do vampiro, aquele do qual milhares de crianças e adultos se vestem no Halloween. As fraquezas típicas (água corrente, crucifixos), a força sobre-humana, a capacidade de criar névoas, a necessidade de carregar terra do local onde nasceu e pedir permissão antes de entrar numa casa, entre outras coisas, são características do Drácula que entram em nossa cultura como típicas de vampiros num geral.

O livro foi base para muitas produções em diversas mídias (livros, quadrinhos, filmes, jogos) e seus personagens entraram em várias obras de cultura pop, como a série de jogos Castlevania, a graphic novel A Liga Extraordinária e o filme Van Helsing, entre outros.

Ouso dizer que nenhum outro livro de vampiros conseguirá superar Drácula em termos de influência cultural, profundidade e universalidade. Tudo o que se escreveu sobre vampiros, até hoje, tem muito a agradecer a Bram Stoker. Os vampiros das lendas do Leste Europeu eram criaturas cadavéricas, repulsivas e sem humanidade, mas Bram Stoker reinventou a lenda mostrando-nos uma figura aristocrática com algum charme. Esse vampiro é o que vive até hoje no imaginário popular. Certamente há vampiros do Século XXI que fugem muito desse conceito. Estão tão afáveis que, na minha opinião, deveriam abandonar esse nome por se distanciarem da mais fascinante natureza vampiresca que encontramos em Drácula.

Ademais Drácula não é somente uma história de vampiros. É o terror na sua melhor expressão em uma trama c0m personagens profundos e reais. Sutil, com um forte suspense e com um momento ou outro de chocante. A atmosfera em si já é aterrorizante, o que já tira toda a necessidade da violência exacerbada do que hoje se chama de terror. Vale muito a pena ler.

Espero que tenham gostado da resenha! Desejo um bom carnaval para todos vocês, seja no terror ou na folia, na Transilvânia ou no Brasil.

Ver também:

Drácula (livro), a venda na Livraria Cultura

Dracula in popular culture (artigo da Wikipedia, em inglês)


Autor: André Marinho
Criação: 18/02/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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