15º Ensaio Cultural - Quem aconselha amigo é... ou seria inimigo?

"Com um bom conselho, antigamente ganhava-se um camelo; hoje, a inimizade", diz um provérbio árabe.  Isso foi dito pela primeira vez nas arábias em uma época que desconheço, porém a sua validade aqui e hoje permanece inegável. Já não se pode mais usar um outro provérbio de mesma origem que nos diz "o teu irmão é aquele que te dá um conselho honesto", embora com este eu concorde em gênero, número e grau. Eu sou muito grato a um amigo que saiba me aconselhar quando eu preciso. Acolher um bom conselho é uma ótima forma de superar suas próprias limitações. Como é impossível a alguém ver de forma imparcial as suas decisões, ações e pensamentos, uma visão de terceiro é imprescindível para que observemos nossas próprias falhas. Estas, é óbvio, não podem ser por nós mesmos observadas a não ser que o resultado indesejado esteja diante de nós. Dessa forma, nada tem a mesma importância que um bom conselho para se alcançar o sucesso. Como pode, então, este ser tão mal recebido hoje? Por que está sobrando a oferta mas não há procura?

Um dos motivos seria orgulho. É um fato consumado que muitos não querem receber conselhos por serem demasiado orgulhosos. Aconselhar, portanto, é uma afronta. Tomar um conselho de outrem é rebaixar-se e deixar de ser autodeterminado. Embora creia-se fortemente nisso, sua validade é duvidosa. Francis Bacon dizia que "os mais sábios príncipes não devem pensar ser uma diminuição de sua grandeza, ou derrogação de sua suficiência, confiar em conselho". Eu acrescento às palavras de Bacon que os príncipes que não confiam em conselhos são de natureza despótica, que não possuem a autoconfiança que aparentam, mas profunda soberba. Os "príncipes" de hoje - daqueles que encontramos em cada esquina, sem nobreza e detentores de títulos insignificantes - são déspotas ainda mais altivos.

Outro fato que contribui para esse fenômeno é a crise da comunicação humana que enfrentamos hoje. As intenções por trás de cada ato enunciativo são suspeitadas, nunca compreendidas. Há uma esquizofrenia paranóide dentro de todas as pessoas que é aconselhada: "por que você está me dizendo isso?", "qual é o seu objetivo?", "tá querendo me usar?". Ademais, quem aconselha também não está livre das más interpretações e dos males da arrogância. Geralmente emite-se a opinão com um ar altivo, dando a entender que está em nível superior de quem aconselha, mesmo que não o esteja. O aconselhado, em reação, tenta se colocar por cima ignorando o aviso. "Quem é você para dizer o que eu devo fazer?". Assim, a face de independência é preservada, mesmo que sejam desastrosas as consequências. 


Estas motivações evidenciam o decrescimento do bom senso. A base para este ódio ao conselheiro está em um sentimento presunçoso aliado a uma eterna posição de defesa do ego.


Enfim, não podemos negar que precisamos os avisos e opiniões daqueles que têm algo a dizer e nos edifica, pois eles veem em nós aquilo que nós mesmos somos incapazes. Deixar o orgulho de lado nessas horas pode ser bem necessário. Sobretudo, ver o conselheiro como amigo e não como inimigo é um passo à frente. Neste mesmo momento, em que lhes dou a sugestão de se abrirem aos bons conselhos, estou sendo um conselheiro, algo moralmente reprovável na nossa sociedade. Afinal, quem sou eu para dizer o que você deve fazer?


Autor: André Marinho | Criação: 22/04/2012 | Objetivo: www.ligadosfm.com
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