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7 de abr de 2012

19ª Resenha Crítica - Vidas Secas

Saudações, caros leitores! Acredito que demorei tempo demais pensando em resenhar esse livro e não tomando a iniciativa. Olhava para ele na estante, enquanto ele olhava para mim. Eu pensava "quero você lá no blog do Ligados FM, algum dia". O dia chegou. Cansei de apenas pensar "eu quero" e cheguei à fase do "estou fazendo". Por fim, terminei. Não foi lá um trabalho de grande complexidade como eu outrora imaginava fazer. Pelo contrário, preferi ser como o próprio autor do livro resenhado: seco, conciso, simples. Confiram abaixo a minha resenha de uma joia da literatura brasileira e nordestina. De Graciliano Ramos, Vidas Secas.

Vidas Secas conta a história de uma família de retirantes nordestinos, composta por um pai (Fabiano), uma mãe (Vitória), dois filhos (ambos sem nome) e uma cachorra (Baleia). No primeiro capítulo, os cinco, depois de muitos dias a caminhar sem descanso, chegam a uma fazenda abandonada, onde pretendem fixar residência. O dono, porém, logo surge para reclamar a posse e permite que a família fique desde que trabalhem para ele. Depois disso, sem qualquer prejuízo, pode-se ler a obra como se bem entender.

A estrutura do livro é cíclica e até certo ponto independente. Os capítulos podem ser lidos independentemente ou fora de ordem sem grande prejuízo, pois são todos unidades fechadas que fazem parte de um todo. O próprio Graciliano não os concebeu a princípio como interdependentes, o que reforça este caráter. Como uma exceção a essa independência, defino o primeiro capítulo, o capítulo inverno (metade do livro) e o capítulo final, que juntos marcam o ciclo seca-chuva-seca. Juntos eles nos dão a impressão que isso aconteceu antes e que se repetirá após o fim da história contada em Vidas Secas.

A descrição se sobrepõe à narração e esta ao diálogo. Os personagens pouco falam e, quando falam, geralmente têm seu discurso diluído no do narrador, num discurso indireto livre. Comunicam-se ainda menos. Não são raras as vezes em que há fala mas a comunicação é nula. Isso acontece quando o Soldado Amarelo diz a Fabiano ordens que ele não entende (causando a prisão do mesmo por motivos que o próprio não compreende), quando Vitória diz a um dos seus filhos que "inferno" é uma palavra feia e ele ganha mais admiração pelo lexema por ser uma palavra bonita e ao mesmo tempo ruim. Compreender um ao outro é o que parece ser de menor importância para eles, pois tudo que lhes é necessário é uma questão de sobrevivência acima de convivência.

A obra é de forte inspiração naturalista. Tudo em Vidas Secas parece destruir as definições do que é homem e do que é animal. Fabiano considera-se um bicho e diz em voz alta, com orgulho, que o é. Um bicho porque é capaz de aguentar a força da natureza. Baleia, a cachorra, por outro lado, tem muito mais humanidade que todos os seres humanos da obra. Ela sonha, tem sentimentos, mostra amor e companheirismo apesar de qualquer dificuldade. Se há alguém que muito nos inspira sentimentos, esta é Baleia. Os outros membros da família, em toda a sua humanidade, são hostis e utilitaristas, pois tudo a eles se mostra uma necessidade para sua sobrevivência, à qual, parece-nos, Baleia é indiferente.

A seca e outras dificuldades pelas quais passam os trabalhadores nordestinos parecem ser a causa dessa bestialização. O mundo que vivem é seco, áspero, duro e de uma vermelhidão que parece se estender eternamente. Diante de tais condições, a humanidade parece ir desaparecendo da essência do indivíduo. Só o que parece acender a luz interior da família de Fabiano são as possibilidades futuras como ter uma cama como a de Seu Tomás da Bolandeira, conseguir prosperar com o trabalho e garantir que os filhos também o façam. Se há alegria e força para eles, está tudo no futuro que não se sabe se acontecerá.

Diante do acima exposto, muitos podem dizer que Vidas Secas é grandioso porque representa o que é autenticamente nordestino. Eu diria exatamente o contrário: Vidas Secas é grandioso porque representa com grande excelência aquilo que é humano. O sertão nordestino, por acaso, é um cenário muito bom para isso - um dos melhores que podemos encontrar tão próximo de nós -mas não é somente nele que se desenvolveria aquilo que enxergo como a essência de Vidas Secas.

Eu volto então, aos temas que tratei na minha resenha anterior. Ponham Vidas Secas em uma mão e aquilo que Viktor E. Frankl definiu como ser humano em outra e depois unam as mãos. Lembrem-se de como as pessoas se comportam em face do horror e conseguem manter um sentido de vida...

Pensem, enfim, nos campos de concentração como se fossem as secas e vice-versa.

Ver também

Ratos e Homens (livro de John Steinbeck, semelhante a Vidas Secas em temática e discurso, mas ambientado nos EUA)

Vidas Secas (filme de 1963, adaptação do livro homônimo ao cinema)

Autor: André Marinho
Criação: 07/04/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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