20ª Resenha Crítica - Café-da-Manhã dos Campeões



Boa tarde, meus leitores! O livro resenhado hoje é Café-da-Manhã dos Campeões é um clássico de Kurt Vonnegut, publicado em 1973. Sinto muito, mas terei de fazer uma análise reducionista da obra, que para mim é riquíssima em termos estéticos e em conteúdo. Considerem o que eu disser apenas uma pequena parte do essencial.

Café-da-Manhã dos Campeões é um livro peculiar em vários aspectos. A começar pelo enredo: é a história de um Kilgore Trout, um escritor que foi participar de um evento em Midland City e teve sua obra levada a sério demais por Dwayne Hoover, um vendedor de automóveis que ao ter lido isso em um livro de ficção que ele era de fato a única criatura com livre-arbítrio no mundo, acreditou piamente que esta era a verdade. E a loucura por aí não acaba. O encontro dos personagens é apenas um pretexto para contar sobre a vida dos dois em separado até o seu fatídico encontro. E esta história, por sua vez, nos faz cair no riso até não aguentarmos mais. Porém, não pensem que é um riso em vão. É, na verdade, um riso bem sério. Sério e descontrolado.

Como se não bastasse o absurdismo kafkiano da trama, o livro é direcionado a alienígenas, que pouco sabem sobre a vida na Terra. Para explicar a eles cada aspecto da vida terráquea - em especial a americana - o narrador tece explicações simplíssimas, secas e cínicas que nos levam ao riso em cada página. Ninguém nem nada é poupado, nem mesmo os símbolos nacionais como a bandeira e o hino norte-americanos.

Os Estados Unidos sofrem uma exposição da sua mais pura realidade e nada escapa ao sarcasmo de Vonnegut: política, sexo, religião, morte, esporte, arte, canções infantis, castores... Esse efeito é ampliado pelos cômicos desenhos feitos a mão, que incluem um hambúrguer, uma vaca, um túmulo, bandeiras nacionais e até mesmo a fórmula química do plástico. No atual estado cultural do ocidente, podemos, sem medo de errar, estender Café-da-Manhã dos Campeões a um status de espelho da sociedade pós-moderna em geral.

Frequentemente, os fatos que o narrador levanta são à primeira vista são os mais irrelevantes, mas que se provam, no contexto da obra, de suma importância. Há, por exemplo, um grande exagero na quantidade de elementos publicitários na obra. O próprio título do livro, como sabem, é um slogan. Um dos meus anúncios favoritos do texto - talvez por eu concordar plenamente com ele - é o "É mais difícil ser infeliz quando se está comendo - Sorvetes Craigs". Por ter sido escrito na década de 70, acho que a quantidade de publicidade apresentada é até reduzida se compararmos com o que temos hoje. Vivemos a observar uma grande poluição visual urbana, é tão intensa que não nos demos conta de como a maior parte desses anúncios é ridículo. Tão ridículos quanto os da obra de Vonnegut.

Outro elemento que eu vejo presente é a grande falta de questionamento por parte do cidadão comum. Ele acredita nas propagandas, na mídia, consome vorazmente, repetindo os slogans e chegando ao ponto de dar fé a uma obra de ficção como a do personagem Kilgore Trout. E acredita porque tem a necessidade de fazer algo novo para preencher o seu vazio, situação na qual qualquer promessa de solução desse problema é bem-vinda.

Apreciadores de um bom humor negro e politicamente incorreto não podem deixar de ler Café-da-Manhã dos Campeões. É um livro que une o belo ao grotesco e o cômico ao trágico ao ponto de fazer estes se confundirem. Rimos da desgraça alheia sem o menor pudor - e confesso que regularmente abro o livro por esta mesma razão quando bem me apetece.

Aproveitando o tema, vou eu mesmo fazer propaganda: sabem quanto está custando este livro no Submarino? Uma pechincha de R$ 12,90! Isso mesmo, R$ 12,90! Está quase de graça! Não deixem de aproveitar!

Autor: André Marinho
Criação: 14/04/2012
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