22º Mundo Cão - O Espelho da Maldade

O grande corredor de notícias populares da nossa cidade torna público uma chocante medida: a prefeitura municipal, na figura institucional da Secretaria Municipal de Urbanismo, SEMURB, proibiu a apresentação e promoção de artistas (locais) nos bares e demais estabelecimentos do bairro de Ponta Negra. Por que?

Como se já não bastasse a ação da polícia em coibir o ganha pão de nossos artistas, não somente interrompendo o evento em realização ali naquela momento e no seu devido lugar, mas, ainda por cima, apreendendo os instrumentos (de trabalho) dos músicos presentes, a nossa prefeitura vem, por viés de sua gestão pública, consumar o que já era sabido de não se estranhar de uma administração municipal pouco comprometida com a própria cidade (quanto mais com a cultura dela...).

É como se Natal fosse um verdadeiro rodízio a céu aberto de opções dignas de lazer e entretenimento noturno e que, assim, sentiu-se a necessidade de selecionar para melhor controlar esse excesso; de disciplinar os procedimentos, as entradas e saídas de numerosos artistas e entidades dispostas a promover alternativa cultural para o natalense ou de defender o direito legítimo dos profissionais do ramo artístico; de promover cultura, valorizar a arte local ou viabilizar o trabalho destes últimos e seus produtores... Parece!

O interesse, contudo, está na proteção dos ouvidos daqueles que não ouvem. Pergunto-me se esta medida caiu por terra com fins eleitoreiros ou se corroborado na importunância noturna gerada pela falta de estrutura de isolamento acústico! Ao mesmo tempo, questiono a legitimidade em não interferir na barulheira daquele bar de cadeiras e mesas amarelas, de plástico, tocando forró, sertanejo ou música baiana de qualquer espécie nas alturas, ainda que arrodeado de residências! Já que aqui em Natal Reggae não é cultura...

O que muito tem se visto nesta capital de meu Deus é o fechamento de estabelecimentos que promovem artistas locais, que oferecem couvert artístico de gêneros nada populares, da MPB, Rock ou Bossa da terra, assim como pubs os quais seguem esta mesma linha. Teriam estes que promoverem ordenharias para, então, obter respaldo do poder público a fim de manterem-se intocáveis?

Sim! Porque Ponta Negra não é o local mais apropriado para ouvir e dançar ao som do Grafith ou dos Safadões do Ceará. Assim como daqueles concertos ultra populares, muito comuns em comícios e festas promovidas por políticos e ou jornalistas "do povo" recém ingressos na vida pública.

Ah! Os postos de combustíveis... Ainda há estes, cujos quais, por medida nada popular, porém, soberana da parte destes, proíbem, com relativo sucesso, o uso de som alto em suas pistas.

Dá para averiguar, daí, o que está no gosto do povo natalense! Falo justamente disto tudo o qual nunca cai como vítima da nossa polícia ou da Secretaria de Urbanismo. A baixaria e o Panis et Circensis é a maioria, que, por sua vez, comparece aos showmícios da vida e vai até as urnas fazer justo o que não deve.

Não falo de preferência musical, mas, de dar importância ao que se faz na atividade pública. Direito à cultura, à expressão e à diversidade são dádivas da democracia - a maioria defende o que é de direito de todos (sem exceções). Contudo, manter esta política de reciprocidade, entre povão e gestão pública, é caracteristicamente importante para que se preservem os interesses dos grupos os quais estão nem aí para o bem-estar público e cívico! Eventos de baixo teor cultural são a verdadeira arma que atira em direção do caminho que liga a cultura aos aculturados.

Cultura, sem sombra de dúvidas, também é educação! Veja só: temos, de um lado, uma maioria que concorda com os absurdos deflagrados até aqui; um público significativo de eleitores o qual oferece seus ouvidos e sua consciência, de graça, aos maiores interessados na burrice do povo. Do outro lado, uma administração descompromissada com o resto, que põe em prática o fechamento de estabelecimentos que oferecem de tudo em música e cultura, menos Aviões, Safadões, Periguetes e outros "ões" e "etes" da vida...

O resultado é o fechamento de teatros, a falta de incentivos aos grupos de teatro, de música e oficinas de cultura, depredação de escolas e descompromisso com os espaços construídos com o único intuito de servir-se útil à população (praças e anfiteatros, por sua vez, nada seguros). E quem cobra, senão, algumas dezenas de pessoas conscientes as quais não concordam com esse pão e circo todo? Muita coincidência, o Clowns de Shakespeare que o diga...

O incentivo é pouco, sobretudo, na presente ausência de uma lei que envergonha o espírito e a história da cidade e do cidadão natalense Djalma Maranhão. As leis de incentivo à cultura não provém festivais de cunho político ou eleitoreiro, nem devem. Porém, os recursos públicos sim. A proposta real é a de que as entidades artísticas adquiram sua autonomia e cada vez menos dependam das forças do Estado para sobreviverem. Só que quando isto acontece, o mesmo trata de agir de modo a colocá-las neste ciclo vicioso, de novo!

Isto é a Natal que deposita mais medo do que esperança: tão rica em gente boa disposta a levantar os pilares de nossa cultura (atores, músicos e grupos culturais) e tão pobre de valores oriundos da maioria do seu público...

Por: Andesson Amaro Cavalcanti
Em: 08/05/2012
Objetivo: www.LigadosFM.com

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