18º Ensaio Cultural - Heróis Ontem, Hoje e Sempre

"O culto ao herói existe no presente, existiu no passado e sempre existirá universalmente na humanidade." (Thomas Carlyle)

Em meu ensaio "Uma Defesa da Literatura Fantástica" eu rapidamente enalteci o heroísmo. O que escrevi ali, embora breve, deixou-me a pensar. Nesse meio tempo entrei em contato com heróis da ficção em suas diversas formas: o herói épico, o herói romântico, o anti-herói, o super-herói, o herói byroniano, entre outros. O tempo passa, os locais variam, mas há algo que nunca muda nas sociedades: a admiração pelos heróis. Falarei brevemente sobre alguns deles. Talvez muda o tipo de herói exaltado, mas sempre existe um que nos inspirará.  Estão eles em diversas fontes, produzidas em lugares e épocas distintas: Beowulf, Dragon Ball, Ilíada, Legenda Aurea, a Edda Poética, Marvel Comics, DC Comics, O Senhor dos Aneis, entre outros. Quem são os heróis? O que os torna tão admiráveis?

O herói é, acima de tudo, um indivíduo de excelência moral, grande coragem e frequentemente uma habilidade física fora do comum, fatos que os tornam capazes de grandes feitos. Suas admiráveis ações são constantemente uma reação a adversidades e envolvem o auto-sacrifício. Frequentemente são personagens-modelo, e no passado tiveram um forte papel numa educação moral. A este herói clássico correspondem o herói trágico e o épico na classificação aristotélica. O anti-herói, por sua vez, tem sua força  nas suas falhas e corresponde ao herói do cômico. Faz sempre a coisa certa da maneira errado - não raras vezes por acidente.

Na Grécia antiga, os heróis eram papéis-modelos para um cidadão grego. De tão grande a admiração que geravam as histórias sobre heróis, os gregos cultuavam heróis mitológicos como Héracles, Aquiles, Perseu e Odisseu. A imitação das qualidades desses heróis elevados ao status divino era parte da formação dos jovens e estendia-se à vida pública dos adultos. Os políticos gregos, por exemplo, não raras vezes tomavam os heróis dos mitos e dos poemas épicos como referência em situações difíceis. 

Longe do mundo clássico, na Grã-Bretanha entre os séculos VIII e XI, com a força civilizadora cristã batendo nas portas, surgiu Beowulf, um épico em todos os sentidos: três grandes combates e quatro funerais de grandes heróis devidamente relembrados pelas suas qualidades e ações notáveis. Cada uma destas cenas é intimamente ligada à outra e todas se "profetizam" de alguma forma. O repetido fracasso nas adaptações de Beowulf ao cinema é um grande sinal de que a obra tem sido compreendida somente em termos de fatos narrados, não de sua grandiosa estrutura literária - que é em grande parte deixada de lado.

Pouco posterior a Beowulf são os primeiros romances de cavalaria, que já mostram um pré-nascimento do herói romântico ao trazer a relação distante dos cavaleiros com suas admiradas senhoras - em alguns casos, nem tanto distante, como para Lancelot e Guinevere. Mais tarde, será parodiado o cavaleiro dos romances de cavalaria em Dom Quixote, um herói sem qualquer sucesso em suas empreitadas heróicas.

Ao mesmo nível dos heróis da antiguidade clássica chegaram santos católicos, no livro Legenda Aurea (1260). A obra de Jacopo de Varazze chegou a ser um best-seller medieval e até hoje suas lendas habitam o imaginário coletivo dos católicos. A mais famosa delas é a de São Jorge, lenda antiga contada e recontada na qual o santo guerreiro combate um dragão para salvar uma princesa. Essa história ficou de tal forma no inconsciente do povo que logo se repetiu milhares de vezes em outras produções, até os dias de hoje. E o mais impressionante: é difícil cansar-se dessa mesma antiga fórmula!

Ainda na Idade Média, o ideal da cavalaria de Jacques de Longuyon tinha Os Nove Bravos como figuras inspiradoras. Três cavaleiros pagãos (Júlio César, Alexandre Magno e Heitor de Tróia), três cavaleiros judeus (Josué, Davi e Judas Macabeu) e três cavaleiros cristãos (Rei Arthur, Carlos Magno e Godofredo de Bouillon). Estudava-se a vida de cada um dele s como forma de educação para o bom cavaleiro. Essa seleção entrou definitivamente no conhecimento popular e trouxe a vários homens a referência que precisavam.

Em cerca do sécula do século XVIII surge o herói romântico, que tem como zona de conflito a sua existência, os seus desejos e suas necessidades. Um dos primeiros que podemos citar é o do Don Juan de Lord Byron. Logo no primeiro canto, Byron trata de falar da sua busca por um herói e justifica sua escolha por Don Juan no fato de ele não conseguir encontrar nenhum herói tão corajoso e valoroso como aqueles. Na falta de um bom herói, lá vai um que passa a vida a procurar a mulher perfeita e nunca a encontra - merece nossa admiração por pelo menos nunca ter desistido.

Aproximadamente no século XIX, o velho anti-herói da comédia é trazido para o romance. Pessoas imorais vivem em um mundo corrompido e os escritores realistas nada deixam passar. Todo o lado da natureza humana é mostrado para o mundo, sem vergonha alguma. Muda-se, então, o paradigma: os heróis são pessoas comuns, com necessidades e fraquezas muito mais aparentes que os heróis românticos - embora de uma forma menos mórbida que esses. Bentinho e Capitu, que poderiam ser um casal perfeito pelo que entendemos no início do livro, têm uma relação consumida por ciúmes e por um suposto adultério. Brás Cubas passa a vida em busca de qualquer sucesso e somente o fracasso o acompanha. O realismo, então, já não mais busca trazer um ideal a ser perseguido e sim várias falhas humanas a serem denunciadas. Isso é mostrar precisamente aquilo que não queremos ser. Só não deixo de observar que em muitas pessoas esse efeito é contrário.

Com a modernidade e a pós-modernidade, o poder simbólico do herói foi reduzido ainda mais, pois buscava-se questionar todos os valores e, por conseguinte, o valor do heroísmo. Terry Eagleton, crítico literário, afirmou certa vez, falando sobre Beowulf, que aquela obra assim como o heroísmo em geral são irrelevantes para os dias de hoje. Há ainda os críticos obcecados pela realidade, que criticam o heroísmo porque ele é "irreal". Por estas e tantas outras visões que convergem nesse sentido, influenciando também os escritores, identificar o herói tem sido cada vez mais difícil em qualquer obra artística, pois a tensão é representada por um conflito de interesses no qual cada espectador escolhe o lado com o qual mais simpatiza - que pode ser, inclusive, o de um personagem que é explicitamente um vilão de feitos cruéis justificados por uma história triste ou por fins ditos nobres. Ozymandias, antagonista de Watchmen, é por muitos tido como o verdadeiro herói, pois conseguiu trazer a paz mundial ao custo de milhares de mortos. Ledo engano. O herói de Watchmen, se considerarmos a acepção original do termo, é o Rorschach, que dá a sua vida para descobrir e revelar toda a verdade sobre o esquema do inescrupuloso e utilitarista Adrian Veidt, enquanto este segundo sacrifica outros para seu objetivo que, ao que tudo indica o final da graphic noval, vai por água abaixo.

Porém, não podemos dizer de forma alguma que o heroísmo e o gosto pelos heróis morreu. Na minha infância, acompanhei: os Cavaleiros do Zodíaco a defenderem Athena; Son Goku a salvar o mundo centenas de vezes (inclusive com a energia de todas as pessoas da Terra); o Super-Homem fingindo ser um humano qualquer para viver num mundo que ele se dava o dever de defender por encerrar em si todas as boas qualidades que o seu alter-ego (e a humanidade também) não tinha; vi o Homem-Aranha tentar ganhar a vida como fotógrafo enquanto salvava a Nova York de ameaças; vi também, recentemente, os Vingadores darem cabo de Loki! Como eu, muitas outras crianças, jovens e adultos viram heróis e sonharam em ser como eles. Esta é uma coisa natural: tendemos a querer ser como aquilo que admiramos e a não querer ser aquilo que odiamos. 

Na literatura também não é diferente. Só para citar um exemplo recente, Harry Potter foi um herói que sobreviveu à força do tempo sobre uma geração inteira. Voldemort era uma ameaça que não parava de surgir e o pequeno bruxo mantinha seus esforços para impedir os atos sujos d'aquele-que-não-deve-ser-nomeado. As relações de Potter com seus amigos,  pequenos atos admiráveis como a libertação de Dobby, seus esforços para manter Hogwarts segura e sua grande capacidade fizeram dele um personagem inspirador e deu aos jovens certos bons valores. Podemos ainda citar outros personagens como Snape, por muitos considerado o maior de todos os heróis da série.

Podemos ver, então, que o  heroísmo nunca sai de moda, pois é absolutamente necessário. Negar a importância e a necessidade de heróis é negar a própria essência da civilização. Enquanto há civilização, deve haver quem a defenda de qualquer mal que possa levá-la ao colapso. Por isso, enquanto houver humanidade, não cessarão de surgir salvadores. Quando da ficção os heróis desaparecerem, há dois diagnósticos possíveis: ou estamos completamente livres de qualquer mal ou o mundo está acabando e nós já aceitamos isso. Vivemos numa época em que nos falta heróis, nas coisas pequenas e nas coisas grandes. É necessário gente com grande força moral e capacidade para defender o mundo daqueles que o destroem. E é claro: temos de nos lembrar daquilo que diferencia o herói do malfeitor, pois os malfeitores frequentemente se veem como salvadores do mundo. E pior: há gente que também os vê assim. Mas, essa discussão fica para outro momento.

Autor: André Marinho
Criação: 03/06/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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