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2 de jul de 2012

25ª Resenha Crítica - Arte de Furtar





Honestidade é uma virtude rara. O roubo existe desde que existe Homo sapiens e permanece tão comum que nem o mais honesto de todos os homens deixou de cometer um pequeno furto, mesmo que tenha sido uma caneta Bic emprestada e jamais devolvida. Arte de Furtar, livro escrito no Portugal do século XVII por um anônimo, trata dessa tendência humana ao roubo e examina as suas diversas formas. É um tratado moralista sobre as variedades de furtos e de ladrões, com instruções para os identificarmos e deles nos acautelarmos. Eis também um bom manual se você quiser aprender a ser um malandro.


Li para esta resenha a edição da Martin Claret, editora parceira do Ligados, que enriqueceu o livro com glossário de termos arcaicos e também um estudo crítico assinado por João Ribeiro, no qual se discorre sobre a contextualização histórica e a controversa autoria de Arte de Furtar. Ribeiro examina os argumentos de diversos estudiosos que defendem esta ou aquela autoria e chega à conclusão que o autor mais provável é Tomé Pinheiro da Veiga. A discussão por si só já vale o livro e é ainda melhor se apreciada se o leitor conhecer os possíveis autores.


O livro é aberto por duas dedicatórias: uma ao rei D. João IV de Portual e outra ao seu filho, o príncipe D. Theodósio. Esta dedicatória é importante porque esses monarcas são as únicas duas pessoas que o autor exclui da rotulagem de ladrões, a qual ainda é direcionada a outros reis, em especial aos que teve o reino de Castela, acusado pelo autor de sempre ter usado de unhas para furtar. Essa entre várias outras referências socio-históricas serão importantíssimas para o livro, que se mostra claramente defensor do reino português e crítico do reino castelhano que governou Portugal durante a União Ibérica. Excetuando-se o rei e o príncipe, a quem o autor pede que se dê fim aos ladrões, ninguém escapa da crítica do anônimo do século XVII.


Os primeiros três capítulos ironicamente esclarecem o que é a arte de furtar, e falam como esta é uma arte nobre, antiga, e uma ciência verdadeira. Os capítulos subsequentes se ocuparão em falar dos vários tipos de "unhas" usadas para roubar: militares, políticas, disfarçadas, maliciosas, sábias, ignorantes... Quando conta de cada uma dessas unhas, o anônimo autor exemplifica com alguns casos reais - alguns talvez inventados - em que se observou o uso de tais unhas para a prática de tal arte. Tratando-se dos ladrões, explica-se como se apresentam, como nos causam o dano e como conseguem passar ilesos, até mesmo fingindo ser o seu roubo justificável. A justificação do roubo, aliás, é um fato ao qual o livro muito nos alerta: aquele que furta, muitas vezes o faz nos oferecendo alguma coisa em troca do que temos. Mas, aquilo que nos oferece, embora nos pareça útil, é prejuízo. Ou, se parece pequeno o dano, ele pode ser enorme. Mesmo o clássico exemplo de "roubo inofensivo" como o de galinha não escapa à crítica. Isso porque, mostra-nos o autor, este é um caso de pequeno furto que causa grande prejuízo. A galinha em si não é uma grande perda, mas ela põe ovos, que podem tanto servir de alimentos como podem ser vendidos ou chocados. A perda de uma galinha pode significar a perda de um meio de sustento.


Por fim, no último capítulo nos é dito que todas aquelas unhas enumeradas e examinadas são poucas, havendo muitas mais que do olhar do escritor escaparam. Como se conhece o leão pelas unhas, da mesma forma são os ladrões. Para cortar as unhas desses, nos são dadas três "tesouras" para todas elas, de forma a  prevenir que existam os ladrões antes que eles tenham a iniciativa de roubar. Que tesouras são estas, deixo que o leitor descubra em sua leitura.


Esta é uma obra singular e de grande valor para a literatura de língua portuguesa. O único defeito que se pode encontrar em Arte de Furtar, ao meu entender, é a linguagem fortemente marcada por um estilo barroco do século XVII, o que dificulta a leitura para um leitor contemporâneo. A ironia, os trocadilhos e metáforas que permeiam a obra e a fazem tão peculiar também confundem ao leitor. Um dicionário e um conhecimento prévio da língua da época são necessários para uma satisfatória compreensão, além de uma grande capacidade interpretativa. Ideal mesmo seriam muitas notas de rodapé de um estudioso de obra, que entre os contemporâneos não conheço um. Lamento que seja de difícil leitura por motivos acima mencionados. Ainda assim, convido os leitores do blog a fazerem um pequeno esforço, como eu também fiz, para apreciar essa literatura contundente e de grande atualidade.

Autor: André Marinho
Criação: 01/07/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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