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15 de jul de 2012

26ª Resenha Crítica - Como me tornei estúpido



Boa noite, caros leitores ligados em literatura. Eu costumo escrever sobre algo intelectualmente estimulante, mas desta vez eu vou tratar de falar sobre um livro idiotizador. Quando digo "idiotizador", não pense que estou falando mal do livro, pois somente estou resumindo o tema recorrente do bestseller do francês Martin Page, vencedor do prêmio literário Euregional, Como me tornei estúpido. 

Como me tornei estúpido tenta nos responder a seguinte pergunta: "será que a ignorância é mesmo uma bênção?". Para isso, conta a história Antoine, um estudioso de vinte e cinco anos que sofre de depressão desde que se entende por gente devido a seu excesso de autoconhecimento e consciência moral, que o impede até mesmo de enganar a si mesmo ou de tomar uma ação que tenha más consequências, por mais distantes que sejam. Quando vai comprar camisetas, por exemplo, Antoine precisa se certificar que não há escravidão infantil no processo de sua produção. Com sua inteligência somente lhe trazendo sofrimento e nenhum propósito prático na vida, ele decide que tornar-se estúpido é o caminho se encaixar na sociedade e aceitar a vida que ele tanto odeia. Para alcançar este fim, de tudo ele tenta: alcoolismo, suicídio, lobotomia e pílulas da felicidade.

O livro é bem simples e agradável de se ler; tem menos de duzentas páginas e seus capítulos são sucintos. Começa com duas epígrafes: uma citação de Oscar Wilde ("Ele os invejava por tudo que não sabiam") e outra dos Beatles ("Obladi, oblada, life goes on bra"). A primeira nos traz a ideia geral do livro e uma descrição simples de Antoine. A segunda, é ao meu entender, pode ser tanto um puro nonsense como uma aviso de que a vida continua por mais que fiquemos nos remoendo em reflexões pessimistas.

O primeiro capítulo nos apresenta o protagonista frustrado com sua inteligência e decidido a tornar-se estúpido. Cada um dos capítulos seguintes é uma etapa na jornada em direção à estupidez e termina com um gancho para o posterior, podendo este gancho ser uma nova decisão, um novo dilema ou um novo fracasso. Fracassos, aliás, é o que Antoine mais experimenta enquanto tenta ser algo diferente. Quando tudo parece dar certo, ele sempre acaba tendo uma recaída e ganha algum grau de lucidez. Em cada tentativa nova, Antoine pede ajuda a algum dos seus poucos mais fiéis amigos, todos bastante excêntricos, entre os quais um samoano que fala em versos e brilha no escuro.

O livro usa e abusa do humor absurdo, ao estilo de Monty Python e Kurt Vonnegut, o que faz a leitura muito agradável, trazendo situações absurdas como: um coma alcoólico causado por meio copo de cerveja; a ida de Antoine a uma escola para suicidas; a visita do fantasma de alguém que não morreu; e consultas de Antoine (que tem 25 anos) com um pediatra. Esse nonsense culmina no estranho final do livro, no qual o problema de Antoine é resolvido por deus ex machina, sem uma justificação senão a necessidade de salvar o aspirante a imbecil da sua ruína.

Talvez o maior defeito do livro é que, por ser tão curto e pouco objetivo, num geral não serve como um tratado sobre inteligência e estupidez, estas que são apresentadas no livro a partir de estereótipos em vez de categorias universais bem desenvolvidas.


Pode-se interpretar Como me tornei estúpido como o drama das pessoas inteligentes num mundo contemporâneo estúpido e fútil, no qual elas simplesmente não conseguem se encaixar. É a história de vida das pessoas que pensam demais e, por isso, não conseguem ter certezas, não se conformam e não conseguem conceber um sentido na vida. Sem dúvidas muitos se identificarão com o protagonista - isso é algo que pude facilmente constatar entre os meus conhecidos que leram o livro. Seja você estúpido ou inteligente, este é um livro que você não pode deixar de ler.


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Autor: André Marinho
Criação: 15/07/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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