9ª Entrevista Literária - João Paulo Hergesel

João Paulo Hergesel é o autor do livro de contos “Anilina, Ziguezague e Désirée”, pela Editora Patuá. Nasceu em 1992, no dia 25 de julho, que por coincidência é nacionalmente considerado o Dia do Escritor, em Sorocaba (interior de SP). Reside em Alumínio/SP e atualmente trabalha com revisão gramatical de livros e presta serviços editoriais (redação, tradução e afins), além de ser estudante universitário do último ano de Letras: Habilitação em Português e Inglês, pela Universidade de Sorocaba. Foi colunista de dois jornais locais e participou em diversas antologias, colecionando dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais.

O autor João Paulo Hergesel

Ligados: No momento atual, diversos jovens têm se interessado pela Literatura. Porque decidiu tornar-se escritor? 

JP Hergesel: Não foi bem uma decisão, e sim um acaso. Desde muito novo, sempre gostei de viver em um mundo fantástico, imaginando coisas e acreditando na própria imaginação. Quando aprendi a ler e a escrever, fiquei não só imerso nas páginas dos livros infantojuvenis como também comecei a passar minha criatividade para o papel. Pode parecer até um pouco surpreendente, mas meu primeiro prêmio literário foi aos 9 anos, com um poema que escrevi sobre cidadania. Mesmo assim, até os 15 anos, eu jamais me imaginava na posição de escritor; escrevia apenas para desabafar o que sentia. Depois dessa época é que eu acabei me assumindo contista, cronista, romancista e o que mais se encaixar. 

Ligados: Quais autores influenciam a sua produção literária? 

JP Hergesel: Aprendi um pouquinho com cada autor que já li: desde a simplicidade de Ruth Rocha até a complexidade de Virginia Woolf. Mas os que mais se destacaram foram: Sérgio Klein, que inspirou minha criatividade; Clarice Lispector, que influenciou minha subjetividade; Adriana Lisboa, que me ensinou a tratar as palavras com a delicadeza que elas merecem; e Lygia Bojunga, cujo estilo foi o que mais me incentivou a brincar com a linguagem. 

Ligados: Como foi o processo de criação de "Anilina, Ziguezague e Désirée", a sua primeira coletânea de contos juvenis? 

JP Hergesel: Foi meio do nada. Eu estava com diversos contos voltados ao público infanto-juvenil, todos arquivados quietinhos na minha pasta pessoal do notebook. Resolvi, então, que juntaria todos em um único documento e tentaria a publicação, enviando o original a diversas editoras — na época, enviei não só o livro de contos como também um romance juvenil, para o qual ainda não consegui patrocínio para publicação. "Anilina, Ziguezague e Désirée", no original, chamava-se "Vintium". Tinha esse nome por soar bastante lúdico e porque o livro continha vinte e um contos. A editora, quando aprovou o original, no entanto, sugeriu alguns cortes e o livro passou a ter apenas quatorze contos. Em consequência disso, o livro foi batizado com o nome de um dos contos. 

Ligados: O seu livro foi lançado pela editora paulista Patuá. Como você visa o mercado editorial brasileiro e como foi o processo de ir atrás de uma publicação? 

JP Hergesel: A Patuá foi um presente que caiu do céu. O mercado editorial brasileiro, infelizmente, está mais focado no lucro do que na qualidade. Então, a maioria das editoras já consagradas dá preferência a escritores internacionais e autores de best-sellers, limitando o espaço editorial e impedindo que novos autores se destaquem. A Patuá, em contraponto, está mais preocupada em dar oportunidade a esses jovens talentos da literatura e tem feito um lindo trabalho, publicando livros com alto teor estilístico e literário. A Patuá me ajudou a perceber que muitas das recusas que ouvi de editoras “grandes” não se deram ao fato de que minha escrita era supostamente precária, mas porque meu nome era desconhecido. Pode parecer até absurdo, mas já cheguei a ter o original recusado sem mesmo ter sido lido: utilizaram minha (pouca) idade como critério de avaliação — e não foi uma única vez. Portanto, só tenho a agradecer aos meus queridos editores, Eduardo Lacerda e Aline Rocha, que, mesmo não me conhecendo, acreditaram no meu talento e apostaram no meu trabalho. Se hoje tenho um livro impresso publicado, devo isso ao carinho deles.

Ligados: O que você sentiu ao receber os primeiros exemplares físicos do seu livro? 

JP Hergesel: Foi uma coisa muito louca. Na verdade, a ansiedade maior não foi tanto com relação aos exemplares físicos, e sim com a questão da capa. Todos os dias, meu fígado se corroía de curiosidade para saber como ficaria a capa do livro. Eu não conhecia o Jozz, o designer, mas vi, pelo portfólio dele, que fazia um excelente trabalho. Sabia que meu livro estava em boas mãos, mas ainda assim contava os segundos para ver a capa pronta. Quando o Eduardo e a Aline (editores) me mandaram o resultado, tive o maior encanto da minha vida: o gato anil olhando o novelo que fazia ziguezague se tornou minha imagem preferida. Tive a certeza: o Jozz havia se superado! Depois disso, ainda demorou um tempinho para que todo o resto ficasse pronto (a diagramação, a parte gráfica, etc.), então só recebi os primeiros exemplares no dia do lançamento. E foi de uma maneira bastante inusitada: eu estava passando em frente ao supermercado e, surpreendentemente, esbarrei com o Eduardo e com a Aline por lá; eles haviam acabado de chegar de São Paulo para a noite de lançamento (que seria em Alumínio). No mesmo momento, o Eduardo buscou os exemplares que estavam no carro e deixou em minhas mãos. Foi a primeira vez que carreguei meu filho no colo. 

Ligados: Fale um pouco sobre a sua obra. 

JP Hergesel: São 104 páginas de louqueira e feliversão (loucura com doideira e felicidade com diversão). São 14 contos juvenis que tentam agradar jovens de todas as idades, e não apenas o público adolescente. Há histórias narradas em primeira pessoa, em terceira, em drama, tem histórias de pura fantasia e até de ficção realista. É a mistura de um pouquinho de cada coisa, um verdadeiro ziguezague na imaginação. E o estilo é cheio de bom humor. Mas o que chama mais atenção mesmo é o título: Anilina, Ziguezague e Désirée. Sempre me perguntam o motivo. Aproveito, então, para contar: esse é o título de um dos contos do livro, em que a personagem principal diz que essas três palavras são suas preferidas. Além disso, é possível fazer uma interpretação semiótica do nome: anilina porque os contos servem para colorir a imaginação do leitor; ziguezague porque o tema dos contos segue a linha do vaivém; e Désirée, que em francês significa “o desejado”, para mostrar o livro como objeto de desejo do leitor. Tudo isso pode ser percebido na capa, confeccionada pelo Jozz: o gato tingido de anilina olhando desejosamente para o novelo que faz ziguezague no chão. 

Ligados: Como tem sido o reconhecimento do público a respeito do seu trabalho? 

JP Hergesel: Dizem que gostam, e eu acredito. Mas confesso que, às vezes, recebo tanto elogio que fico até desconfiado. Acho maluquice alguém receber elogios em número tão maior do que críticas. Só sei que o entusiasmo é grande, e a surpresa ocasionada pelas histórias que me contam sobre a influência dos meus textos é ainda maior. Uma amiga disse, poucos dias depois do lançamento do livro, que a irmã dela não dormia antes de ouvir o último conto do livro: A Bússola Mágica. É uma metáfora da vida real, sobre um menino triste que sai em busca da felicidade, mas não consegue encontrá-la em nenhum lugar onde procura. É um dos contos mais aplaudidos, mas sou obrigado a admitir que está longe de ser o meu preferido (tanto que quis até cortar do livro, mas os editores não deixaram). Outra história bacana foi uma contada pela minha professora de literatura inglesa e norte-americana. Segundo ela, estava na fila do teatro quando resolveu começar a leitura do livro e começou a rir sozinha com o primeiro conto: Ted. Este conta a história de um garoto que se sente esquisito por ter um nome diferente e ser zombado com trava línguas até em inglês. Cá entre nós, acho que esse é meu conto preferido do livro. Tenho um carinho enorme por ele, tanto que foi o mais bem trabalhado na hora da produção.

Ligados: Ainda na escrita, você participa frequentemente de concursos literários. Tem ideia de quantos prêmios já ganhou e quais os que possui maior apreço? 

JP Hergesel: Até minha última contagem, foram pouco mais de cinquenta prêmios. Pode parecer um número bem alto, se levarmos em consideração meus 19 anos de idade, mas, como sempre dizem que quantidade não é qualidade, prefiro não me gabar. Sou grato por todos e tenho uma estima muito grande por cada um deles. Mesmo assim, é óbvio que há aqueles com os quais eu gostaria de dormir abraçado todas as noites. Posso destacar como exemplo: o Cancioneiro Poético, realizado pelo Instituto Piaget de Portugal, que foi meu primeiro prêmio internacional; o Mapa Cultural Paulista, realizado pela Secretaria de Cultura de São Paulo, no qual fui selecionado para representar Alumínio e a região sorocabana; o Desafio dos Escritores, realizado pelo Núcleo de Artes da Câmara dos Deputados em Brasília, do qual recebi até convite para ser jurado; e o clássico Concurso Literário da Uniso, em que fui finalista antes mesmo de fazer parte do corpo discente da universidade. 

Ligados: Você foi colunista de dois jornais locais, contribuindo com diversos textos como Crônicas, Contos, Resenhas e Artigos. Como foi essa experiência? 

JP Hergesel: Foi uma experiência bastante válida e, algumas vezes, desafiadora. Em abril de 2009, o Jornal de Alumínio Regional, jornal de maior circulação da cidade, chegou até mim e fez o convite para que eu passasse a escrever quinzenalmente para eles. Adorei a ideia de ser lido por toda a população da cidade e até mesmo das cidades vizinhas por onde o jornal circula. Tive meu trabalho amplamente divulgado e ganhei alguns fãs (risos). Em julho de 2010, a Gazeta de Alumínio, outro jornal do município, também passou a publicar meus textos — foi outra surpresa para mim. Hoje, infelizmente, já não contribuo com o mesmo gás de antes, devido às obrigações universitárias e à monografia de conclusão de curso. Acabo tendo tempo somente para escrever textos acadêmicos e fico sem inspiração literária para manter a periodicidade dos jornais. Mas só tenho a agradecer a ambos os jornais pela excelente oportunidade que me deram e que, com certeza, também foram responsáveis pelo amadurecimento da minha escrita. 

Ligados: Atualmente você trabalha como Revisor Freelance. Em sua opinião, qual a importância desse tipo de profissional na vida de um escritor? 

JP Hergesel: O escritor vive em fluxo de consciência e, por isso, acaba despejando tantas ideias no papel que não sobra tempo para dedicar-se às questões de pontuação, concordância, regência e ortografia. Ainda que o escritor tenha um ótimo conhecimento da gramática, os erros passam despercebidos, mesmo após várias leituras. É então que entra o revisor. O revisor é o responsável pelo acabamento do texto: se o livro fosse um prédio em construção, o revisor seria aquele profissional que passa a massa corrida e tapa os buracos e corrige as imperfeições antes da finalização da obra. Trabalhei como revisor freelance para a Editora Espaço Idea em 2010, mas não tive a oportunidade de dedicar muito tempo a esse ofício, visto que fui contratado pela prefeitura para trabalhar na área da educação. No início deste ano, no entanto, resolvi me aventurar piamente nesse ramo e montei uma empresa prestadora de serviços editoriais: a Jogo de Palavras. Hoje, exerço a função de revisor não apenas para editoras como também para pessoas físicas (autores independentes e outros profissionais que necessitam do trabalho de correção ortográfica) e amo ter a gramática como minha sócia.

Ligados: Como você equilibra o seu tempo, já que tem que dividi-lo entre Vida Social e Profissional? 

JP Hergesel: Acordo e vou para o computador, responder e-mails dos colegas da faculdade e terminar alguma pesquisa ou escrever algum ensaio. Depois saio para almoçar e volto para o computador, fazer contato com editoras e autores e dar continuidade em alguma revisão. Então saio para comer alguma coisa e vou para a faculdade, dedicar um pouco mais de tempo às línguas portuguesa e inglesa. Chego no fim da noite e vou direto para a cama, sonhar que tenho uma vida social. No fundo, agradeço por existir Facebook. 

Ligados: Fale um pouco sobre os seus novos projetos. 

JP Hergesel: Devia ser segredo, mas estou com dois livros infantis prontos. Só não corro atrás de publicação ainda, porque pretendo insistir nos concursos literários. Se até o fim do ano nada der certo, as editoras que aguardem meus originais em 2013. Também estou com intenção de transformar minha monografia sobre estilística cibernética em um livro didático ou acadêmico (ideia do meu orientador), então suponho que levarei até o fim do ano para concluí-la. Quanto à produção literária no momento, só posso dizer que estou em fase de hiato, uma pausa na carreira, para dedicar-me exclusivamente ao contexto acadêmico. Mas pretendo iniciar, logo que as coisas se acalmarem, algum romance juvenil ou até mesmo um livro de crônicas. Fora isso, semestre que vem, estarei em alguma peça de teatro experimental — como já é meu costume em todo semestre (risos). 

Ligados: Você possui dois Blogs literários de maior reconhecimento, o Joaninha Platinada e o Com a Palavra JP. Qual o objetivo dos mesmos e para quais tipos de leitores eles são direcionados? 

JP Hergesel: O Joaninha é um blog dedicado aos amantes da literatura infantojuvenil e informações relacionadas; o Com a Palavra JP, por outro lado, é o blog onde posto meus textos, especialmente os que são publicados nos jornais. Ambos os blogs são abertos a todo tipo de público e são livres para receber quaisquer tipos de comentários. 

Ligados: Por já possuir experiência, qual a dica que você deixa para os novos autores? 

JP Hergesel: Esses dias, escrevi um ensaio sobre novos autores. Nele, ressaltei a existência de inúmeros autores jovens e mencionei a importância da internet para o desenvolvimento cognitivo do escritor. O espaço cibernético permite diversas leituras de diversos mundos em questão de cliques. A dica, então, é esta: continuem navegando, continuem lendo e, consequentemente, aprendendo. Criem blogs, páginas virtuais, divulguem seus escritos, peçam dicas e, principalmente, participem de oficinas literárias. Há várias oficinas de escrita criativa on-line que permitem que o escritor tenha acesso a comentários (sinceros) de profissionais da área de Letras. Eu mesmo não imagino como seria, se não tivesse participado incansavelmente dessas oficinas e, simultaneamente, de concursos literários.

Perguntas rápidas: 
Autor(a): Adriana Lisboa;
Ator(Atriz): Felicity Huffman;
Site: Facebook;
Banda: La Oreja de Van Gogh;
Música: Aquarela (Toquinho);
Filme: Letra e Música.

Links na internet: 

Links dos seus produtos nas lojas online: 
Cultura: Aqui;
Patuá: Aqui.

Ligados: Deseja encerrar com mais algum comentário? 

JP Hergesel: Quero agradecer à Equipe Ligados, em especial ao Thiago Jefferson, que me convidou para esta entrevista tão interessante. E, é claro, não posso deixar de agradecer a você, leitor, por ter acompanhado este bate-papo até o fim e conhecido um pouco mais sobre minha vida. Faço, inclusive, o convite para que todos vocês continuem acompanhando meu trabalho, já que a vida de todo escritor é, coincidentemente, um livro aberto.


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 13/07/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com
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