22º Ensaio Cultural - Batman: As Mortes e Ressurreições de um Herói



"Como homem, sou de carne e osso e posso ser ignorado ou destruído. Mas, como símbolo eu posso ser incorruptível. Eu posso ser eterno." (Bruce Wayne)

OBS: O ensaio a seguir contém spoilers de todos os filmes da trilogia do Batman de Christopher Nolan. Se não quer ler revelações de fatos importantes do enredo de nenhum dos três filmes, deixe para ler depois.

A trilogia do Batman de Christopher Nolan, com o encerramento que teve (Batman: The Dark Knight Rises), tornou-se de longe a minha preferida de super-heróis, pela forma que apresenta fortes personagens marcantes que são muito mais do que simples pessoas, embora sejam em todos os sentidos humanizados: eles são símbolos e ideais. Batman, o justiceiro, o ideal encarnado do poder do indivíduo contra o mal e a injustiça; Coringa, o louco, do próprio caos; Bane, o reformador, do idealismo destrutivo; entre vários outros. Nesse ensaio, analisarei os símbolos presentes na trilogia, com foco nas profundas transformações do Bruce Wayne/Batman desde Batman Begins até O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

O Batman/Bruce é um personagem que se transforma formas distintas: pelo isolamento, pela perda de entes queridos, entre outras. No primeiro filme, vemos o Bruce como alguém fraco pelo medo e pelo mau senso de justiça - e são precisamente o estes os dois assuntos principais desse filme. Estas duas condições psicológicas vêm a ser desafiadas quando o milionário decide compreender o sofrimento e a mente criminosa, decisão que o leva à sua primeira de três prisões. Na solitária, tem a oportunidade de vencer seus receios e exercer a justiça: é convocado a participar da Liga das Sombras. 

Na Liga, morre o velho Bruce e transforma-se um simples homem em uma ideia, um herói. Tornar-se uma ideia, usar o medo contra os que o causam nos outros e identificar-se com a escuridão foram algumas das lições que aprendeu com a Liga das Sombras, e essas se tornaram os grandes passos de Bruce em direção ao Cavaleiro das Trevas. Aprende todas as lições essenciais e no final desafia o seu próprio mestre, vendo que este relativizava a vida humana e considerava a morte justa diante de certas circunstâncias - além de também querer destruir Gotham. Incapaz de internalizar esses valores, Wayne derrota a Liga das Sombras (a relativização da justiça) e volta para a cidade que Ra's al Ghul pretendia destruir.

Voltando a Gotham, Bruce incorpora todas as lições que aprendeu: o temor é vencido de tal forma que ele escolhe ser exatamente aquilo que temia, simbolizando-se por um morcego e tendo por base de operações uma caverna plena da fonte de suas aflições. Com a ajuda "sobrenatural" de Lucius Fox, que dá ao herói todas as armas possíveis, nasce finalmente um símbolo: o Batman. Não usa armas de fogo, não mata os inimigos, mas mostra-se um justiceiro implacável, enfrentando toda e qualquer ameaça nas noites de Gotham. 

Pronto para destruir a cidade, temos o pânico que está representado na pessoa do Dr. Johnathan Crane, o Espantalho, que controla as pessoas através do seu medo, disparando de uma droga inalante que causa a imaginação do pior temor da vítima, tal como a Sala 101 do livro 1984, que pelo contato com o objeto de aversão controlava os cidadãos subversivos para o lado do Grande Irmão. O Espantalho, como lembra Crane, é um arquétipo jungiano de uma causa de medo, e está no filme como o próprio pânico, pronto a destruir Gotham ao espalhar-se pelo ar. A única esperança é aquele que na Liga das Sombras dominou seu maior medo: o Batman. "O que você realmente teme está dentro de você. Você teme seu próprio poder. Você teme sua fúria. Agora deve voltar-se para dentro", foi o que lhe disseram na Liga das Sombras. O Espantalho também muito bem sabia disso, e manipulava o medo das pessoas de dentro para fora, deixando-as fisiologicamente propensas a esse estado. O próprio Crane, no entanto, não era capaz de vencer seus temores e sucumbiu quando o feitiço foi usado contra o feiticeiro. Batman Begins, portanto, mostra na jornada do Batman uma simbologia de vitória sobre o medo e aplicação da justiça de forma que esta mesma não se mostre injusta. 

Em O Cavaleiro das Trevas, o homem-morcego consegue criar um espectro de punição aos crimes, que o Comissário Gordon consolida com a ativação do Bat-Sinal à noite. Todos os criminosos temem agir, porque há um cavaleiro noturno pronto para puni-los. A inspiração que o Batman passa vem do próprio ideal: o Batman pode ser qualquer um. Por esta razão, muitos se inspiram nele, porém da forma errada, vestindo-se como o herói para combater o crime - fato ao qual ele se opõe fortemente. Porém, esse é o menor dos problemas: o caótico Coringa surge e ele tem de enfrentá-lo com o apoio do Comissário Gordon e Harvey Dent, o novo promotor distrital.

O Coringa mostra-se, para o Batman, uma grande dificuldade, porque é totalmente imprevisível e muda seu modo de pensar a cada segundo, somente porque quer se divertir destruindo a ordem estabelecida. Tudo aquilo que no primeiro filme havia aprendido sobre o crime veio a se mostrar errado. Quando Alfred diz que "há homens que não buscam nada lógico, como dinheiro. Não são comprados, ameaçados, racionalizados, e com eles não se pode negociar. Há homens que só querem ver o mundo queimar", Bruce finalmente percebe o seu erro.

Harvey Dent, que ajuda o Batman na caçada, vem como esperança à cidade ao ser eleito como promotor. "Eu acredito em Harvey Dent" era seu slogan de campanha e se tornou a realidade, pois Gotham o tinha por alguém dotado de virtudes como coragem, justiça, prudência e honra. A sua moeda da sorte, presente de seu pai, o acompanha inicialmente apenas em momentos banais, para decisões de menor importância. Seus primeiros sinais de loucura aparecem em um interrogatório com um dos homens do Coringa no qual Dent vai decidindo sua postura com ele jogando uma moeda. O Batman, ao ver esta cena,  "Você é o símbolo de esperança que eu nunca serei. Contra o crime organizado, você é o primeiro verdadeiro raio de luz em Gotham há décadas. Se vissem isso, tudo iria pelos ares". Tragicamente, tudo vai de fato pelos ares, com a ajuda do Coringa.

O  Coringa é a própria destruição da ordem, sem visar qualquer outra coisa senão mostrar aos planejadores que eles não podem controlar o mundo - ou pelo menos assim ele disse em certo momento. Logo na primeira cena do filme, rouba um banco com uma grande equipe e faz com que cada um dos envolvidos no roubo mate um ao outro. O Coringa é um completo mistério e se reinventa em todo momento, não tendo qualquer identificação ou nome alternativo. Ele não tem nem mesmo uma única história ou uma única posição sobre as coisas, mudando-as sem qualquer padrão perceptível. Conta duas versões diferentes para a história da sua cicatriz; em um momento, diz que quer matar o Batman e em outro, ri com a possibilidade de querer tal coisa. Mata Rachel e faz um atentado contra o Harvey Dent e para depois ir visitá-lo no hospital, disfarçado de enfermeira, para se justificar e transformá-lo em outro agente da destruição.

Com o ódio tomando conta do seu coração e sem um sentido diante da morte de Rachel, Harvey Dent é dominado pelo caos e decide mostrar ao mundo sua face oculta. Passa, então, a decidir mesmo questões morais sem base em princípios, mas pelo acaso, até em questões de vida ou morte de inocentes. Morre, vítima dos seus próprios vícios (ira, soberba, arbitrariedade), cumprindo aquilo que o próprio disse em outro momento: "ou você morre como herói ou vive o suficiente para se tornar um vilão". Mas, o Caveleiro das Trevas decide por não revelar a verdade sobre Dent e se tornar aquilo que ele diz que Gotham precisa: um bode expiatório, um símbolo do mal que fosse dado por responsável pela morte do herói da cidade, conhecido pelas suas distintas qualidades como homem - estas que logo se provaram falsas.

No terceiro e último filme, Harvey Dent, mesmo morto, está com uma presença muito mais imponente na luta contra a crime, em forma da Lei Dent, que o velho super-herói, agora visto como um fora-da-lei e assassino do herói de Gotham, nivelado com os piores criminosos.

Bruce, tal como seu alter-ego, desaparece do mundo e está cercado de rumores. A morte de Rachel causa um profundo luto no seu coração e encontra ainda na imagem de herói do promotor mais uma razão para não ser mais o Batman. Encerra-se, então, voluntariamente, na sua segunda prisão: a Mansão Wayne.

O processo de retorno do Batman à ativa é aquele mesmo teorizado por Joseph Campbell como o A Jornada do Herói, encontrado em narrativas ao redor do mundo inteiro e que segue 12 passos. Não falarei sobre isso em detalhes, embora esteja usando isso como base para análise, portanto deixo-o como uma curiosidade para os leitores pesquisarem. 

Sem contato com o mundo, torna-se visivelmente fraco, inclusive fisicamente, necessitando de uma bengala para caminhar. Eis, então, que surge uma figura feminina que quebra o seu isolamento, Selina Kyle, que abre seu cofre e rouba o colar de pérolas sua mãe. O objeto roubado, em valor material, é banal comparado a toda a fortuna de Wayne, mas há duas razões para aquilo ter sido significativo: o valor sentimental do colar e a humilhação do herói aposentado pela ladra. Nesse momento, Bruce se sente movido algo maior o seu luto, o que faz com que ele saia do seu isolamente e cace a femme fatale . O segundo empurrão vem do detetive  órfão, que revela a identidade de Bruce e diz que a cidade precisa dele. O terceiro e último chamado é a notícia do estado de saúde do Comissário Gordon, esta que o leva a se deslocar até o hospital, tanto para tratar-se como para fazer uma visita surpresa.

O impulso para o retorno do Batman é um outro: a Liga das Sombras e sua vontade de destruir Gotham, como uma forma de justiça, retornam. Bane, um reformador com retórica, justificando cada um dos seus feitos como se fossem a coisa certa. "Eu sou um mal necessário", diz o próprio mascarado. Seu maior impulso é a corrupção da cidade e, para destruir esta, ele pretende explodir o local. O Batman pretende encontrá-lo para lhe dar um fim e para isso busca a ajuda de Selina Kyle, a ladra que roubou-lhe o colar, com a qual conseguiu um relacionamento caoticamente amigável. enfraquecido pelo tempo que passou distante, tenta impedir o Bane, mas não tem sucesso e acaba na sua terceira prisão, que é literalmente um abismo.

Enquanto está no abismo, Bane leva a cabo seu projeto revolucionário: isola Gotham do resto do mundo, diz dar ao povo o destino da cidade e liberta todos os prisioneiros revelando a verdade sobre Harvey Dent: ele era de fato um homem mau que serviu como símbolo de justiça e justificou que a injustiça fosse cometida através da Lei Dent, que aumentava os poderes dos policiais e abria espaço para condenações pesadas e sem muitas provas até mesmo de inocentes. A Lei Dent é satirizada pelo tribunal revolucionário que tem como juiz o Dr. Johnathan Crane, o Espantalho, que define previamente a culpa do acusado, sem direito a contraditório ou defesa; a única chance que se dá ao acusado é escolher sua pena: morte ou exílio (que também levava à morte).

Durante a anarquia em Gotham, bem distante e preso está Bruce Wayne, tentando recuperar a força perdida e adquirir uma sabedoria que antes não detinha para poder escapar dali. Como bem se sabe, o Bruce enfrentou os seus medos na Liga das Sombras e conseguiu dominá-los. Porém, dominou-os excessivamente e por isso não conseguiu concluir a escalada. Usando a corda, não tinha medo da morte, pois sabia que teria como tentar novamente e não deu o máximo de si para sair. Sem a corda, ele teme a morte e consegue com sucesso se libertar ao som de gritos de prisioneiros que por ele torcem. Este é  o momento de renascimento do herói, agora pronto para salvar a sua cidade daquele que incorpora ideais reformadores errôneos.

Com o receio da morte, o Batman torna-se mais prudente e ciente de sua fragilidade física perante Bane, potencializando assim a possibilidade de vencê-lo em combate pelo medo de por ele ser derrotado (embora a vitória sobre Bane seja mérito de Selina). A conquista desse sentimento elementar também faz com que ele tenha se prevenido consertando o piloto automático antes de salvar Gotham. A salvação é verdadeira; o sacrifício, simbólico. Tão forte simbolicamente que dá ao Cavaleiro das Trevas uma imagem como a de Jesus Cristo crucificado, que ofereceu a própria vida para salvar dos pecados (a corrupção moral da cidade) aqueles que o rejeitaram.

Com essa morte trágica (que fez muitos chorarem no cinema), o Batman tem seu sacrifício reconhecido como heróico e torna-se, finalmente, um ideal. Ele morre como homem, mas permanece como um símbolo, que é um poder além da sua própria vida. Com o Batman, morre também o Bruce Wayne que conhecemos e tudo que ele possuía torna-se ferramenta da corporificação do bem em Gotham: a Mansão Wayne torna-se um orfanato e a empresa é deixada para "homens mais comprometidos", como o próprio pai do Bruce em vida deixava, detendo somente o capital. O Bruce foi além e se libertou de tudo que tinha de material e deixou para quem precisava, tendo aprendido isso com Selina Kyle, a ladra que roubava "somente o necessário" para dar a quem precisava. Como Bruce, essa mesma ladra livrou-se do passado para ter uma vida normal, e foi exatamente isso que fizeram juntos, sorrindo para o Alfred em um café na Itália.

Deixa ainda o final a entender que haverá um sucessor para o Batman, que chega à Batcaverna e nela adentra. Isso é mais do que esperado. Afinal, símbolos são eternos e enquanto existirem inspirarão ideais, sejam eles positivos ou negativos, criadores ou destruidores. Se houve mesmo um Batman, haverá vários outros.

Autor: André Marinho
Criação: 05/08/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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