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19 de ago de 2012

23º Ensaio Cultural - Transcendendo os contextos e ideologias

Não raras vezes, quando converso tanto com leigos como com intelectuais, percebo uma tendência à leitura de tudo a partir do seu contexto histórico e social - seja arte ou ciência humana. Nesse tipo de leitura, (frequentemente associada ao marxismo ou à análise dos discursos foulcaultiana) que não dá conta do potencial infinito e da essência de qualquer objeto escrito, frequentemente nos é passada a impressão que estamos diante de algo ultrapassado, como se houvesse uma evolução técnica absoluta na arte e nas ciências humanas, que descarta completamente o que foi produzido no passado, ou lê-se com um olhar acusador: "veja como eles eram estúpidos", "veja como essa esse trabalho de arte contém determinada ideologia".

Eu concordo que devamos, sim, conhecer o contexto de uma produção para melhor compreendê-la, seja ela de qualquer natureza. Não podemos, porém, nos limitarmos a isso, ou perderemos todo o potencial de leitura de um riquíssimo trabalho. Beowulf foi um poema que por muito tempo foi muito mal explorado pela crítica, devido a um uso excessivo da obra como leitura da história anglo-saxônica e dos seus valores, excluindo os elementos fantásticos que em muito são importantes para a trama. O famoso linguista, escritor e crítico Tolkien, em resposta a esses, fez a sua palestra Beowulf: the monster and its critics, argumentando a favor dos aspectos literários da obra, tão rejeitados pelos críticos do tempo do escritor de O Senhor dos Anéis.

Em Por que ler os clássicos, Italo Calvino também nos atém aos aspectos universais e atemporais, estes muito mais relevantes para quem busca ler uma obra literária e dela aproveitar ao máximo, não se limitando a questões superficiais que afastam as pessoas das leituras em vez de convidá-las, matando textos e propagando ignorância. Eu vou além do que diz Calvino sobre A Odisseia ser a história de todas as viagens e chamo a atenção para a inspiração que a obra trouxe para toda a cultura ocidental, levando à produção de diversas outras versões?

Como não faço restrição à leitura literária ao histórico, não limito meu argumento aos épicos citados nos parágrafos acima. Em poucas palavras, resumirei como isso se aplica a outros livros: por mais que escrito por um marxista, Of Mice and Men não é sobre marxismo ou luta de classes, assim como não o é Vidas Secas; Monteiro Lobato pode ter alguns elementos racistas (estes que levaram a uma polêmica grande recentemente), mas não é por causa de um sentimento politicamente correto que devemos deixar de ler os livros do Sítio do Picapau Amarelo, grande monumento da literatura infantil nacional, ou reduzi-la a um estudo das forças sociais quando há tantos elementos maravilhosos que permanecem apesar das transformações históricas; Robinson Crusoe serve como ponto de partida para um estudo sobre colonialismo, desenvolvimento do capitalismo e outras coisas relacionadas ao seu contexto histórico, porém não deixa de ser uma história sobre aventuras, relações humanas, isolamento e tantas outras coisas que se deixadas para trás por um crítico assassinam o texto, mesmo que haja uma análise brilhante sobre o discurso da obra.

Pode-se dizer que caímos no risco de termos uma leitura ingênua ao não estudar o contexto histórico de uma produção literária e ficarmos com uma análise que não aborde nada de histórico. Com isso eu concordo parcialmente: ao entendermos onde se desenvolveu o que lemos, temos um ponto de partida absolutamente necessário para um conhecimento mais profundo sobre como a arte transforma a sociedade e vice-versa. Por outro lado, se não estudamos o texto em si, sem demasiadas interferências externas, falamos demais sobre tudo, menos sobre o próprio objeto de estudo. Por consequência, este se torna apenas uma ferramenta para provar uma tese pronta, que nada ou pouco acrescenta aos leitores.

Se abrem a boca, então, para falar que "isso é apenas algo daquela época", eu respondo com a mesma moeda: esse discurso de que isso é coisa daquela época é, na verdade, uma tendência da sua própria época, e que portanto não pode ser aceito por algo que em outra foi produzido. Isso invalidaria qualquer possibilidade de juízo sobre qualquer coisa e é a conclusão óbvia que se chega ao seguir as mesmas premissas dos estudos que simplificam tudo como mero produto histórico, temporal ou ideológico (mas nunca fazem isso com seus próprios discursos).

Autor: André Marinho
Criação: 19/08/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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