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20 de ago de 2012

7ª História Mal Contada: Conversas Arborizadas


             Saudações, queridos e queridas amantes da história e de estórias. Como vocês estão andando? Eu tenho andado muito e muito rápido. Minhas pernas estão muito cansadas, desde que saí correndo desesperadamente para fugir dos tiros que vinham das linhas inimigas e não cair em minas ou arames farpados. Caminhei na direção do mapa que me foi dado por durante um dia. Estava completamente exausto. Para descansar, quando o opúsculo escorria pela abóboda celeste, encontrei uma gigante árvore. Achei que eram os sinais já das florestas que se aproximavam. Comi alguns de seus frutos e nela me escorei, como minha pequena mochila de campanha, com os poucos bens militares que me restavam da trincheira e adoeci. Então queridos amigos, quando acordei tive uma surpresa, por isso agora, vocês devem sentar e ouvir o que eu tenho a dizer.
            -"Já não acha que está na hora de acordar?" - Essa frase vinha no meu ouvido, e me acordava do meu profundo sono.
            -"Hã!? Quem é?" - Eu olhava para os lados procurando quem falava isso para mim.
            "Aqui atrás de você!"- foi a resposta. Me levantei dei a volta em toda a árvore e disse:
            -"Bem.. não tem ninguém atrás de mim... onde você está?"
            -"Na sua frente, onde você estava dormindo... Sou eu!"- Olhei espantando, era a árvore que estava se comunicando comigo. Desde aquela lagosta na praia, eu não tinha visto mais esses tipos de seres falantes. Cada vez mais me sentia uma espécie do romance do Exupéry.
            -"Você dormiu em mim e comeu dos meus frutos. Isso significa que de alguma forma ou outra, estamos unificados a partir desse momento." - Falava a grande árvore.
            -"Como assim?" - Estava ainda meio tonto devido o despertar repentino.
            -"Oras, é algo bem simples. Nesse mundo, ninguém está sozinho. Estamos todos conectados como se a realidade fosse um rede. É  como uma espécie de nó que enlaçam essa rede da realidade fazendo dela uma só, criando o que todos vivem a primeira pessoa do plural: nós. O desatar do nó é a morte. A guerra que fazem vocês humanos, fazem com que os homens se tornem cegos e passem a desatar todos nós da realidade. É preciso que você como soldado não entenda o inimigo para matá-lo. Afinal, você algum momento, pensou que do outro lado da trincheira existiam seres humanos, que sentiam medo, que queriam voltar para casa, que tinha esposas filhos, e estavam na mesma condição que você, lutando para ganhar dinheiro?
            -"Eu pensava isso... mas somente quando não estava lutando, quando passava a lutar, eu só pensava... melhor, eu não pensava... eu não pensava... me nada... era como fosse uma espécie de transe... eu matava e não tinha consciência disso..."
            -"É e ainda existem pessoas como vocês que dizem que seria muito tédio viver como uma árvore como eu. Veja só, quantas árvores eu destruí em toda minha vida? Nenhuma."
            -"É o homem é ruim..." já estava concluindo, ganhando alguns centímetros a mais da minha corcunda pessimista, quando a árvore me interrompeu."
            -"Não fale bobagens; o homem não é ruim. É apenas ignorante, isso é um estágio de vida que pode ser mudado com muita facilidade. E mais, o homem tem capacidade do ato mais belo que nenhuma natureza animal e vegetal é capaz de reproduzir, sabe qual é?"
            -"Não faço ideia..."
            -"O da piedade. Somente o homem é capaz de errar, mas também somente ele é capaz de perdoar. Eu não sou capaz de perdoar nada, mas você é. E primeiramente pare de se condenar pelo seu passado rapaz. Erga-se, perdoar o outro também exige que saibamos perdoar a si mesmo em primeiro momento."
            -"Obrigado pelo ensinamento...." tentei terminar a frase mas a árvore não deixou:
            "Vá! É somente isso que eu tenho dentro de minha arbórea experiência de vida. Agora podemos dizer que somos um, não só porque você só comeu meus frutos e dormiu em mim,mas agora, você carrega em ti um pedaço do meu ensinamento no fundo da sua alma e você terá eternamente em minha memória a sua imagem. Você está em mim e eu em ti. Agora, siga seu destino, você tem uma mensagem do seu amigo para dá e árvores... bem... nem todas elas falam mais..."
            A face da árvore foi sumindo levemente por dentro do tronco e eu assistia como o ensinamento vibrava em meu interior, agora o meu coração batia na frequência da sonoridade das ultimas palavras da árvore. Olhei para o sul, meu destino estava longe, meu caminho era longo, mas agora iria ser mais curto, porque não seguiria sozinho, uma árvore amiga iria comigo.

Autor: Douglas Cavalheiro
Criação: 27/06/2012
objetivo: www.ligadosfm.com
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