6ª História Mal Contada: De Frente no Front


            Saudações, amantes da história e estórias. Tudo tranquilo por esses dias? Bem... Para mim, posso dizer que as coisas não estão tão tranquilas, por estas regiões. Entendo agora que barril de pólvora perigoso era esse lugar, como tanto me alertou o pobre velhinho. A guerra estourou por lá e não existe ninguém que esteja a salvo. Todos foram obrigados a se alistar. Depois de passar alguns dias escondido em uns escombros que foram bombardeados, tive que finalmente, numa aparência de verme esfomeado, sair correndo para aqueles que tanto me escondia: ingressei no exército. Era a única forma de conseguir comida. Fui locomovido por longas distâncias até as trincheiras do front ocidental. Essa é daquelas histórias que muitos avôs da antiguidade gostariam de contar para seus netos. Mas como não tenho filhos, meus herdeiros são vocês que compartilho meus contos. Sente-se para a nova que já esta para começar.
            Estava muito frio. Sinais de que o inverno estava para começar. As batalhas que anunciavam nossa triunfal e rápida vitória, tiveram um atraso. Estávamos próximo da capital das luzes, mas somente, vamos escuridão da noite. Não sabíamos quando seria a hora do próximo ataque. O alarme de ataques soava constantemente, e o zumbindo ficava em nossas memórias como uma fantasma que nos perseguisse eternamente. Os dias da semana eu já não sabia mais quais eram; nem os do mês. Somente sabia quando era dia e noite. Sujar-nos era a regra para fugir das trocas de tiros que aconteciam a cima de nós. Certo dia, depois que terminei de fazer a barba, saí do meu pequeno abrigo, tomar meu ponto na trincheira. Encontrei um colega de batalhas guardando um bilhete no bolso no interior de seu uniforme.
            -"O que é isso?" - indaguei de forma intrometida, típica de curioso que sempre sou.
            -"É um bilhete que eu escrevi. No fundo, cara, sabe.... eu acho que ela me ama. Escrevi numa tarde chuvosa, pouco antes de ser convocado para a guerra. Conheci ela quando nós estudávamos na universidade. Tive que largar os estudos no último ano porque devido a eclosão do conflito militar e como minha família empobreceu com os bombardeios, resolvi vir lutar para enviar o soldo para minha mãe que está doente, vivendo há muitos quilômetros daqui. Ela está num lugar que eu providenciei e encontra-se segura. Agora, a outra, a mulher que é razão dessa carta, não sei mais por onde ela esta, no fundo do meu coração, espero que ela esteja bem..."
            -"Quando foi a última vez que vocês se viram?" -interrompi o companheiro de guerra.
            "Nas aulas. Somente lá tinha oportunidade de vê-la. Nunca estivemos juntos, trocamos muitas poucas palavras, talvez só cumprimentos formais. Fazíamos cursos diferentes, porém a mesma instituição.  Mas, sabe como é a sensação de você encontrar diversas mulheres num lugar só e, somente aquela lhe chamar a atenção? Fazer com que você vibrasse por dentro, como se ela estivesse ali para que você conhecesse ela. De alguma forma, eu tinha que conhecê-la. Mas, apenas me comunicava com carta com ela, jamais conseguir conversar muito tempo com ela pessoalmente..."
            -"Interessante, agora, como você sabe que ela gosta de você?" - Ainda permanecia curioso; afinal, ele somente falava dela, com aqueles olhares no infinitos dos amantes, mas não explicava até agora  a certeza dela gostar dele.
            -"É difícil descrever, mas a forma como ela escrevia para mim, impossível ela tratar a todos dessa maneira. Era incrível como eu ficava feliz ao saber que alguma mensagem dela o trazia o carteiro. Lá ia eu sentar, ler degustando cada palavra, sentido cada sinuosidade das letras que ela fazia com sua pena. Era quase uma obra de arte. Depois eu as guardava e saia para caminha pelas ruas, pensando no que responder para ela. No final do dia, começava  escrever e tinha que fazer várias vezes, pois eu sempre errava meus escritos, ou, minha letra borrava. Guardava a carta por um tempo; somente, uma semana depois enviava."
            -"Por que você esperava esse tempo?"- Afinal, se ele gostava tanto da conversa, qual motivo de esperar ainda uma semana para mandar a resposta.
            -"Bem, eu nunca gostei de fazer algo impulsivo para ela, mas geralmente sou assim. Então eu guardava e, depois de uma semana, lia novamente e muitas vezes, eu arrumava novamente os escritos, para assim enviar. Várias cartas minhas ficaram para trás; daria para formar um livro: As Cartas Que Não Enviei. Esta que eu seguro na minha mão por exemplo." Ele retirou do bolso e me apontou o envelope que guardava. -" Essa foi a única que me restou dessas cartas não enviadas. Depois do grande bombardeio, toda minha casa pegou fogo e perdi tudo. Menos essa, que estava guardada comigo."
            -"Entendi então a causa de você sempre ler essa papel antes das batalhas...." afirmei com ar de relativo alívio como daquela pessoa que finalmente descobre a causa de idiossincrasias alheias.
            -"É para me dar forças... Sempre que leio isso, me da forças para continuar lutando.... Já sei, tive uma ideia!" - Disse o companheiro de armas num grito que quase me assusta
            -"Qual?"
            -"Você poderia enviar essa carta para ela por mim?"
            -"Como? você acabou de dizer que nem sabia onde ela estava!?"
            -"Recordei-me agora que ela disse que ia para o sul, onde tem a floresta. Lá era um lugar que gostávamos, eu tenho o mapa desse local, você poderia encontrar ela lá!"
            -"Mas se eu sair agora não seria deserção?" - Já estava com medo da proposta do meu companheiro de trincheira.
            -"Amigo... ouça o que eu vou te dizer agora, esse batalhão acabou! Não está vendo para os lados! Não há ninguém! Houve um ataque ontem a noite, enquanto nos dois dormíamos, todos morreram. A guerra para nós acabou. Em breve estaremos do lado das linhas inimigas. Teremos que voltar. E todo esse conflito sem sentido esta terminando. Perdemos a guerra, infelizmente tenho que lhe dizer isso. Agora, não queria perdê-la; por favor, poderia fazer esse favor para mim..."- enquanto eu pegava o bilhete e o mapa sinais de tiros começaram a soar.
            -"São os inimigos vindo pelo oeste. Rápido, corra para o sul, em direção sudeste, vou lhe da cobertura! Vá!"-  Enquanto eu virava de costas e começava a correr por entre as lamas, minas enterradas e arames farpados, tiros suavam pelos meus ouvidos como insetos que ficam zumbindo pela noite e não nos deixam dormir. Corri, deixando em minha memória a última imagem do meu amigo, deitado na parede da trincheira, jogando sua última granada, segurando sua espingarda com bravura. Espero que agora, sem a carta que ele tanto lia ele tenha forças. Acho que agora ele terá mais forças ainda, pois sabe em quais mãos elas estão caminhando. Estão indo correndo para onde está seu coração, direto para o sudeste.

Autor: Douglas Cavalheiro
Criação: 27/06/2012
objetivo: www.ligadosfm.com

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