26º Ensaio Cultural - Os Mistérios de Santa Muerte

Olá, caros leitores. Perdoem-me pela longa ausência no blog Ligados FM. Hoje estou de volta, escrevendo como sempre e a todo vapor. Como é de uso comum escrever sobre o Halloween no final do mês de Outubro, eu pensei em fazer algo diferente. Comecei a escrever sobre o Día de los Muertos, mas preferi deixar aquele texto para a próxima Revista Ligados quando vi como estava ficando longo demais para um blog. Uma das coisas que estava a abordar era a Santa Muerte, e esta eu decidi apresentar aqui a vocês sem muita demora.
Na cultura asteca, era comum o uso das caveiras como símbolo de memento mori, isto é, para nos lembrar da transitoriedade da carne e por extensão da vida. Deuses parte esqueleto e parte cobertos por músculo foram Mictlantecuhtli e Mictecacihuatl, rei e rainha do reino dos mortos. Com o sincretismo religioso entre o catolicismo e as crenças dos povos pré-colombianos, o uso das caveiras permaneceu na cultura mexicana, especialmente no Día de los Muertos - algumas delas até são feitas de açúcar, e comestíveis! Mais notável porém, é que surgiu o culto à Santa Muerte (certamente inspirada em Mictecacihuatl), mantido em existência clandestina até o século XX devido a ela se chamar de santa sem estar de acordo com o conceito católico de santidade. Por ser ilegal, a devoção a Santa Muerte tornou-se comum entre criminosos e grupos minoritários da sociedade, como traficantes de drogas, prostitutas e ladrões, que a ela lhe pediam coisas que a nenhum santo católico alguém teria coragem de pedir e esperar ser atendido. Por mais esta razão, de santa a Santa Muerte nada tem. Onde que se faz de santa quem protege interesses mesquinhos! Como se não bastasse ser uma pseudo-santa, ainda tem uma aparência curiosíssima, incomum entre os guardiões dos mortos em diferentes culturas. 

Bem conhecemos a figura do ceifador, sombria e assustadora, com um longo manto negro e uma foice em mãos, é medonha e faz a morte parecer terrível. A simpática Santa Muerte (também conhecida por Señora de las Sombras, Señora Blanca, La Flaca, entre outros nomes) adorada no México, é esquelética e decorada com joias e vestindo um longo manto colorido: pouco guarda de semelhança com aquela velha representação da morte. Toda essa ornamentação tem um significado simbólico bastante interessante: de como as pessoas sem sucesso tentam disfarçar o que realmente são, disfarçando na Santa Muerte, por exemplo, a ausência da carne. É comum que a Santa Muerte esteja carregando uma foice e um globo, respectivamente símbolos de prosperidade (através da colheita ou do alcance coisas distantes com o longo cabo da foice) e do poderoso domínio da morte sobre o globo terrestre. 

Se há algo que os mexicanos já têm mais que garantido em sua cultura, apesar de a Santa Muerte ser uma entidade a serviço de interesses vis e egoístas, é que através da morte se faz a renovação da vida. Se em uma mão há o domínio sobre todo o mundo, na outra há uma esperança e a prosperidade, pronta para colher os frutos que deixaram todos aqueles que se foram. A humanidade, bem sabemos, herdou maior parte do que tem de gente que hoje não mais existe, deixando o cadáver de seus feitos em vida como meio de frutificação das gerações posteriores. Enquanto isso, muitos estão desejando à mesma Santa Muerte que lhes permitiu a existência algo que nada vê além da passageira vida. Essa dualidade da Santa Muerte é fascinante, sobretudo porque quanto mais penso que a entendo, mais a percebo como em uma grande contradição oculta pelo seu longo manto. Preciso um dia desnudar a Santa Muerte e chamar um osteólogo para examinar cada um dos seus ossos e finalmente me explicar de que ela é feita.

Autor: André Rodrigues
Criação: 21/10/2012
Objetivo: www.ligadosfm.com
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