44º Mundo Cão - A Lei dos Contratos

Conviver em sociedade é muito mais do que passar por alguém na rua e dar bom dia. O convívio é quase que um contrato social, ainda que a evolução do convívio para casamento, parceria, sociedade empresarial ou mesmo a divisão de um imóvel para morar exija a elaboração de um contrato escrito.

Mas, por que o contrato? Contrato é o mesmo que acordo, seja ele escrito ou não. O convívio social parte da necessidade do ser humano de se relacionar com o seu semelhante, e isto está afirmado nas palavras de Jean Piaget e Aroldo Rodrigues, estudiosos que embasam parte dos discursos inerentes à formação de conceitos em psicologia social. Acontece que em determinados graus de evolução do relacionamento humano, os indivíduos ali envolvidos, ali relacionados, passam a lidar com minuciosidades, com pequenas similaridades, que podem afetar significativamente o cotidiano de cada uma das partes interessadas e causar maiores transtornos.

É o caso do lembrete deixado na porta da geladeira, uma data comemorativa, uma conta para pagar ou um método contraceptivo a ser usado. Estes pequenos detalhes, ainda que pequenos, têm grandes coisas em comum: consequências.

As consequências de uma conta não paga, de um compromisso de trabalho o qual não se compareceu, o aniversário do chefe ou uma gravidez indesejada, podem resultar em danos maiores do que as palavras "eu assumo o risco" consegue vislumbrar. Em todos os casos, há a falta de planejamento, o constrangimento e a necessidade de se tomar decisões de emergência, ou seja, a presença de uma pressão indesejada.

A pressão indesejada aborda o cotidiano do indivíduo sem que ele tome conhecimento de perspectivas ou de uma premissa que sane a sua necessidade naquele momento, uma necessidade imediata. Pressões indesejadas, quanto maiores, proporcionalmente exigirá soluções cada vez mais imediatas e precisas. Acontece que a precisão é uma variável oriunda do domínio técnico, do número de repetições e do tempo. Ou seja, 'não dá tempo' e as consequências terminam por ser até danosas, ou, no mínimo, geradoras de sequelas que demandarão tempo para serem repostas.

A não realização de manutenções preventivas no veículo, antes de se fazer uma viagem de longa distância, pode resultar na ocorrência de um acidente grave e as consequências já se sabe. A perda de um voo já agendado, por desatenção ao horário de embarque e de chegada no aeroporto, pode resultar no pagamento de mais diárias em hotel e gastos desnecessários em outra cidade que não a que se reside, na ausência em compromissos agendados e, por que não(?), na perda do próprio emprego. De qualquer forma, a má disciplina do indivíduo no cumprimento de seus contratos pode resultar até em cadeia.

Estava verificando estes dias a agenda de um evento o qual estou promovendo, em parceria com antigos de bandas em que toquei há algum tempo, e descobri que existem algumas ações as quais necessitam da colaboração de pessoas com determinado âmbito e grau de competência. Pensei em alguns nomes e levei até os demais e, como resposta, obtive um não quanto à participação deles no projeto, em virtude de minúcias, como o costume de chegar atrasado, não ter o costume de manter o celular ligado e até de não levar tão a sério acertados verbais. Se se tratasse de uma oportunidade de trabalho, essas pessoas estariam descartadas, talvez, da grande virada da vida delas, já que as mesmas dedicam suas horas vagas e produtivas para a arte (e não para outras atividades, como trabalhar em uma empresa, em um órgão público ou no comércio, por exemplo).

Lembro das palavras de um jornalista potiguar, Rilder Medeiros, em uma palestra promovida pelo meu ex-professor de Estratégia Empresarial, quando ainda fazia graduação: "não interessa o lugar, vocês estarão sendo sempre observados". As pessoas a que me remeti no parágrafo anterior erraram na forma de se comportar justamente em momentos que pareciam ser nada cruciais. Ausentavam-se de reuniões, de ensaios e não telefonavam para os demais integrantes de suas bandas de música, a fim de tomar conhecimento do porquê de um encontro simplesmente não ter acontecido ou de não ter recebido uma confirmação se ela ocorreria ou não. Ainda que se tratassem de projetos sem muita perspectiva e que hoje em dia nem existem mais, seu comportamento inadequado frente a tal condição (sendo ela adequada ou não) resultou na exclusão de sua participação em um grupo com objetivos e perspectivas mais sérias - futuramente.

Às vezes, somos assolados pelo mal da desmotivação. Quando isto acontece, a primeira providencia a ser tomada é o desligamento imediato das atividades que justificam a sua desmotivação. Do contrário, seremos pais de um trabalho pífio, de baixo valor para o grupo e com poucas contribuições sólidas. Seremos excluídos do grupo por causas pequenas, até injustificadas. E não há o que discutir, a culpa será centralmente nossa, pois faltamos com acordos previsto em contrato. Isto, porque tendemos a nos motivar com ambientes e condições salubremente favoráveis ao nosso bem-estar, à nossa proteção, os quais nos identificamos e que visualizamos perspectivas futuras favoráveis.

Ainda que do lado de cá não prevaleça o sentimento de segurança e de conforto, quanto aos objetivos de uma determinada empreitada, existe o lado de lá, que pode pensar de forma diferente. O importante é que haja sintonia entre ambas as partes para a manutenção da solidez do contrato ali a se estabelecer.

E ainda que eles não passem de delegações verbais, de ordens da boca para fora, seja justo consigo e com os demais que passaram a confiar e a depender de ti. Cumpra os contratos. Ou, do contrário, isto resultará em consequências significativas, cujo maior prejudicado será você.

RODRIGUES, A., ASSMAR, E. M. L., JABLONSKI, B. Psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Por: Andesson Amaro Cavalcanti
Em: 09/10/2012
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