18ª Entrevista Literária - Eduardo Lacerda

Eduardo Lacerda é autor do livro de poemas "Outro Dia de Folia", premiado pelo ProAC 2011 e que será lançado em dezembro. Nasceu em Porto Alegre em 1982, mas reside atualmente em São Paulo. Coeditou a "Revista Metamorfose" e "O Casulo – Jornal de Literatura Contemporânea". Trabalhou como assistente de produção cultural na Casa das Rosas e como produtor cultural no Programa São Paulo: um Estado de Leitores. Atualmente, é coeditor da Editora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas como Entrelivros, Mirante, Ventos do Sul, Cronópios, Germina e em algumas antologias, como a Antologia Vacamarela e El Vértigo de los Aires (México). 

O autor Eduardo Lacerda

Ligados: Eduardo poeta. Eduardo produtor cultural. Eduardo editor. Em qual deles, e de que forma Lacerda mais se realiza? 

Eduardo Lacerda: A história da literatura é cheia de exemplos de escritores e poetas que também são editores, tradutores, críticos etc. Fazer literatura é muito mais do que escrever e publicar, aliás, escrever e publicar são as menores partes dentro da literatura, acredite. A literatura pede compromisso e engajamento. E penso esse sistema que funciona a poesia como uma guerrilha. É preciso ter coragem para fazer mais, para ousar. E não estou falando de fazer melhor, eu acredito muito no erro e na falha como meios de experiência literária. Como disse o Piva, “não acredito em poeta experimental sem vida experimental”, e a vida experimental contempla mil significados. 

Mas a verdade é que, para mim, estas são atividades que se complementam dentro da minha obra, uma não viveria sem a outra, mas atualmente minha grande paixão é a edição de livros. Sou mais feliz ajudando um jovem escritor a ser reconhecido do que publicando meus próprios poemas, tanto que demorei mais de doze anos para publicar “Outro dia de folia”, meu livro de estreia. 

Ligados: Como surgiu o seu fascínio pela literatura? 

Eduardo Lacerda: Minha mãe sempre teve o hábito de ler para mim, lembro que ela lia algumas histórias infantis e eu adorava, mas o primeiro livro do qual me recordo da leitura, que me impressionou muito, foi, sim, acredite, um livro do Paulo Coelho. Hoje, muito mais experiente como leitor, não conseguiria ler duas frases do ‘mago’, mas em uma família pobre, de pais sem estudo, mas cheios de boa vontade, aquela leitura aos seis anos me colocou em um outro mundo. Essas experiências são bem pessoais, talvez aquela leitura, para outra criança, desperte outras coisas, não um leitor. Provavelmente não desperte mesmo. Mas acredito que para mim, naquele momento, foi decisivo para querer ler outras coisas, conhecer outras coisas. Se não me engano, o segundo livro que me leram e que me leu foi “Dom Casmurro”, um salto incrível, não é? Depois li tudo o que foi possível, principalmente depois de descobrir, já na escola, a poesia e as bibliotecas. 

Hoje meu fascínio pela literatura é o da participação na ‘vida literária’ através dos encontros, das conversas, dos recitais, debates, saraus, publicações etc. 

Ligados: Você publicará em dezembro o tão temido livro de estreia, um projeto que reúne alguns poemas e que foi premiado pelo ProAC, intitulado de “Outro dia de folia”. Está otimista quanto à receptividade da obra? Aproveitando, poderia nos fornecer detalhes a respeito? 

Eduardo Lacerda: Alguns poemas desse livro foram premiados em diversos concursos, outros publicados em revistas e sites; por fim, o conjunto foi premiado pelo ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O prêmio, de 10 mil reais, possibilita a produção de mil exemplares do título, sendo que 200 serão distribuídos gratuitamente nas bibliotecas públicas do Estado de São Paulo, o que é ótimo para a recepção da obra. Além disso, pretendo envia-lo para críticos, poetas e professores como forma de divulgação. 

De qualquer forma, eu tenho consciência de que a divulgação de um livro é extremamente difícil, e não será diferente com o meu. Sei, também, que apesar de existirem alguns ótimos poemas dentro do livro, eu tenho inconstâncias, ainda estou desenvolvendo uma linguagem. No meio desses ótimos poemas, muitos medianos, apenas razoáveis e também ruins. Mas é importante ter coragem de acreditar no erro e entrar no debate da poesia contemporânea com a minha proposta poética. 

Ligados: O que te faz escrever poesias? 

Eduardo Lacerda: Os motivos que me fazem escrever um poema são diversos. Gosto de criar personagens, quase sempre ocultos, e também espaços e cenas dentro do poema. Então tento recriar as situações do meu cotidiano e das minhas experiências, mas nunca escrevo nada sobre mim, embora seja tudo muito pessoal. Nada mais subjetivo do que a objetividade. 

Ligados: Quais livros não podem faltar em sua estante e quais autores influenciam o seu estilo de escrever? 

Eduardo Lacerda: Gosto de ler de tudo, mas principalmente poesia. E, dentro da poesia, principalmente a poesia contemporânea, os autores recentes, os jovens, os inéditos. Entre os meus escritores preferidos, cito a Hilda Hilst, Ferreira Gullar, Ana C. César, Leminski, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Herberto Helder, Borges, Garcia Márquez, Manoel de Barros, entre os consagrados. É impossível citar nomes dos mais jovens, são muitos e correria o risco de esquecer pessoas de quem gosto muito. 

Ligados: Como surgiu a ideia de criação da Editora Patuá? 

Eduardo Lacerda: A Editora Patuá foi criada em setembro de 2010, mas publicamos nosso primeiro título em fevereiro de 2011. Atualmente contamos com quase 70 autores em nosso catálogo e temos outros 40 títulos em preparação. 

Eu já edito publicações há dez anos, desde que publiquei a Revista Metamorfose, uma revista literária que coeditei no curso de Letras da USP; depois coeditei dez números d’ O Casulo – Jornal de Literatura Contemporânea, periódico que contou, por cinco números, com o patrocínio da Prefeitura de São Paulo, através do programa VAI – Valorização de Iniciativas Culturais. 

A Patuá tem dois editores, Aline Rocha e eu.

Ligados: Quais as dificuldades do jovem empreendedor que busca se engajar em um mercado literário cada vez mais competitivo? A editora possui um diferencial que a destaca das demais, ou seja, uma proposta que atrai o público, de maneira geral? 

Eduardo Lacerda: São duas perguntas muito importantes. 

Sobre as dificuldades do jovem empreendedor ou escritor. Quais as dificuldades? Nunca foi tão fácil publicar e divulgar o próprio trabalho. A dificuldade, que não é a do engajamento, mas da falta dele, está no fato de que a imensa maioria dos jovens (e também dos ‘velhos’) escritores brasileiros não gostam de ler, não compram literatura, não se interessam pelo outro, não têm consciência do mercado editorial e literário, desconhecem nossos escritores, estreantes ou consagrados. São preguiçosos e, mesmo assim, quase sempre arrogantes. A literatura deve ser uma festa, a literatura permite encontros, nos traz experiências e amigos. Mas é preciso compromisso, é preciso trabalho. 

O mais bonito é que todos os dias surgem novos grupos de jovens querendo criar uma revista, querendo fazer um sarau, uma leitura pública, um projeto de editora. Eu acredito nesses jovens. E só há dificuldade porque decidiram mesmo fazer alguma coisa. Eu fiz muitas coisas, junto com amigos. Foi difícil? Foi. Mas encontramos a recompensa, que é a da amizade, do encontro com a literatura. Eu acredito muito no que diz o poema “O Artista Inconfessável”, de João Cabral de Melo Neto. 

Já sobre a editora, a Patuá é, provavelmente, a única editora no país que está publicando jovens autores estreantes sem cobrar pela edição e fazendo, além disso, um trabalho de divulgação. Há outras editoras que publicam gratuitamente, como já disse várias vezes, nada mais fácil do que publicar livros. Mas tentamos ir além de publicar um livro. Nós queremos fazer sempre melhor. Utilizamos, para cada livro, um projeto gráfico exclusivo, criamos ilustrações criativas e bonitas, utilizamos apenas os melhores papéis e acabamentos, divulgamos o livro através do envio para jornais, revistas, críticos e professores. Indicamos nossos autores para participação em eventos, debates, cursos. Em menos de dois anos publicamos quase 70 autores, todos ótimos. 

Ligados: Que dica você daria aos novos escritores? 

Eduardo Lacerda: Eu repito esse conselho sempre que é possível: Os escritores deveriam ler mais. Tenho a impressão, quase certeza, de que existem mais escritores no mundo do que leitores – um paradoxo, sim –. Vejo, todos os dias, os escritores reclamando da falta de espaço nos jornais, nas editoras, nas livrarias. Como um autor pode esperar por um espaço nesse mundo se ele mesmo não é um espaço para outros escritores? 

Ligados: Algum outro projeto em mente? 

Eduardo Lacerda: Demorei algum tempo para responder a essa entrevista, mas foi bom, pois recebemos há poucos dias a notícia que a Patuá foi premiada no ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. Ano passado, como dito, tive meu livro pessoal contemplado, com um prêmio de R$ 10.000,00. Este ano recebemos um prêmio para a editora, com um valor bem maior. O projeto, basicamente, contempla a publicação de 12 livros, com tiragem de 1500 exemplares cada, de 12 autores inéditos. Serão, ao todo, 18 mil exemplares, sendo que 20% serão doados para as bibliotecas públicas do Estado de São Paulo. 

Ligados: Considerações finais. 

Eduardo Lacerda: Só quero agradecer a oportunidade e dar os parabéns pelo excelente trabalho. São dos que digo que fazem a diferença.


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 16/11/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com
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