21ª Entrevista Literária - Roniwalter Jatobá

Roniwalter Jatobá nasceu em 22 de julho de 1949 em Campanário, Minas Gerais. Aos dez anos foi morar em Campo Formoso, Bahia, onde concluiu, em 1964, o curso ginasial. Em 1970, foi para São Paulo. Trabalhou como operário na Karmann-Ghia, no ABC, enquanto morava ao lado da Nitroquímica, em São Miguel Paulista. Entrou para a Editora Abril no final de 1973, na área gráfica, e cinco anos depois, formou-se em jornalismo. Foi redator das publicações infantojuvenis desta editora e da Rio Gráfica (hoje Globo) e colaborou em Versus, Folha de S. Paulo, Movimento, Escrita, Ficção e outros. No final dos anos 70 viveu sete meses na Europa, num exílio voluntário. De volta ao Brasil foi redator do Nosso Século, editor de textos do Movimento e Retrato do Brasil (fascículos), editor executivo de Saúde, Boa Forma e de publicações especiais da revista Corpo a Corpo; criou e dirigiu ainda a revista Memória e editou livros históricos na Eletropaulo. Entre 1997 e 2003, atuou também como cronista semanal do jornal paulistano Diário Popular. 

Publicou, entre outros, os livros Sabor de química (contos, 1977, Prêmio Escrita de Literatura), Crônicas da vida operária (contos, 1978, finalista do Prêmio Casa das Américas, em Cuba), Viagem à montanha azul (infantil, 1982), O pavão misterioso e outras memórias (crônicas, 1999, finalista do Prêmio Jabuti), Paragens (novelas, 2004, finalista do Prêmio Jabuti), Trabalhadores do Brasil: histórias do povo brasileiro (contos, 1998, organizador). Pela editora Nova Alexandria, publicou Rios sedentos (2006), voltado para o público infantojuvenil, Contos Antológicos (2009), Cheiro de chocolate e outras histórias (2012) e, para a coleção “Jovens sem fronteiras”, O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008), O jovem Luiz Gonzaga (2009) e O jovem Monteiro Lobato (2012). Publicou ainda dois livros pela Editora Positivo: Viagem ao outro lado do mundo (infantil, 2009) e Alguém para amar a vida inteira (novela juvenil, 2012). 

Seus contos foram ainda incluídos em diversas antologias brasileiras e estrangeiras, com traduções para o alemão, inglês, sueco e italiano. Em 1988, traduziu o livro de contos “A cavalaria vermelha”, de Isaac Babel, editado pela Oficina de Livros.

O autor Roniwalter Jatobá

Ligados: Como e quando aconteceu o seu primeiro contato com a literatura? À época, já imaginava que se tornaria um escritor? 

Roniwalter Jatobá: Acho que dois fatores importantes me fizeram arriscar na literatura: Muita leitura e vivência. Nasci em Campanário, Minas, em 1949. Meus pais eram baianos, estavam ali desde o final da Segunda Grande Guerra (1939-1945), quando buscaram o norte mineiro para tentar a sobrevivência. Eram tempos difíceis, época de desbravamento de uma inóspita região. Quando começou a chegar o progresso, por exemplo, o asfaltamento da Rio-Bahia, minha família voltou para o sertão baiano nas proximidades da cidade de Campo Formoso. E essa volta foi importante para mim. Vivendo na casa de um tio, entrei num colégio protestante para fazer o ginásio e, aí, a descoberta da literatura. Nesta pequena cidade, por sinal, havia um oásis cultural. Nunca me esqueço: os jovens, na grande maioria, brigavam para ver quem ia ler primeiro as novidades literárias que chegavam de Salvador. Havia ali um advogado e professor de geografia, Domingo Dantas, que colecionava livros autografados de autores brasileiros. Tinha todo mundo. Ele mandava buscar no Rio de Janeiro. Naquela época, e durante quatro anos, nos esbaldamos de ler Graciliano Ramos, José Lins do Rego e muita prosa americana. Em 1964, terminei o ginásio, mas meu pai não tinha condições de me enviar para Salvador para continuar os estudos. 

Com quinze anos, a minha perspectiva era trabalhar na roça ou ajudar meu pai, que possuía um velho caminhão. O trabalho era agradável e me sobrava muito tempo. Enquanto meu pai cuidava dos negócios nos pequenos lugarejos, eu lia. Foi aí que conheci quase todos os títulos da pequena biblioteca de Campo Formoso e travei conhecimento com os textos de Dostoievski, Gogol, Kafka e muitos outros. 

Depois de servir o Exército em Salvador, vim para São Paulo. Era início de 1970. Trabalhei de ajudante de almoxarifado na Karmann-Ghia, no ABC. Em 1973, saí e entrei na Abril, como apontador de produção na gráfica. A partir daí, auxiliado pela empresa, fiz supletivo colegial e, depois, pude me formar em jornalismo. Foi na escola que comecei a escrever os primeiros trabalhos. Eram contos e, em todos eles, o cenário era a periferia paulistana ou os dramas dos migrantes. Virei, então, escritor e jornalista. Enquanto trabalhava em Versus, Movimento e publicações da Abril, continuei a escrever. Aí, um dia, mandei um conto para a revista Ficção, no Rio, e outro para a Escrita, em São Paulo. Ganhei os dois prêmios e não parei mais. 

Ligados: Existe algum autor que te influencia na escrita? 

Roniwalter Jatobá: Os escritores acabam sempre influenciados pelas suas leituras. Gosto muito da prosa russa do século 19 e a literatura brasileira de meados do século 20, que inclui Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Busco, no entanto, a minha maneira de narrar. Escrevo devagar. Sigo sempre o conselho de Otto Maria Carpeaux, que dizia que o estilo é a escolha do que deve ficar na página escrita e o que deve ser omitido. É a escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver. Na literatura é preciso muita paciência até encontrar o tom e o ritmo certos. 

Ligados: Dentre os seus mais de quinze livros, há algum pelo qual possui maior apreço, ou seria como escolher o melhor filho? 

Roniwalter Jatobá: Todos são importantes. Mas fico feliz quando acho que criei um bom livro para jovens. Há escassez de bons textos para o público jovem. Num limbo entre o leitor adulto e o infantil, os jovens sentem falta de bons textos, aqueles que deveriam mostrar como é viver num momento de formação da sua personalidade. Até acho que os bons escritores deveriam dedicar um pouco de seu tempo para escrever para jovens. Numa crônica na Folha de S. Paulo, o poeta Nelson Ascher comenta sobre uma das responsabilidades sociais do escritor, que é a de também formar novas gerações de leitores. 

Ligados: Me parece que este ano foi bastante produtivo em relação aos seus lançamentos. Você publicou os livros “Alguém para amar a vida inteira”, “Cheiro de chocolate e outras histórias” e “O jovem Monteiro Lobato”. De forma breve, poderia nos falar a respeito de cada um? Como ocorre o seu processo de criação literária que, espetacularmente, produz tanto texto em tão pouco período de tempo? 

Roniwalter Jatobá: O ano de 2012 foi realmente produtivo em relação a lançamentos. Mas, embora os três livros tenham sido editados ao mesmo tempo, em cada um deles houve um trabalho individual, cada um à sua maneira. “O jovem Monteiro Lobato”, que faz parte da coleção “Jovens sem fronteiras” da Editora Nova Alexandria, por exemplo, foi objeto de uma longa pesquisa que durou mais de um ano. Além de buscar informações em livros, revistas e jornais antigos, estive duas vezes na região de Taubaté, no interior paulista, para visitar os lugares percorridos pelo criador do Sítio do Pica-pau Amarelo, um pioneiro e mestre da literatura infantojuvenil no país. Já “Alguém para amar a vida inteira”, editado pela Editora Positivo, é um romance que escrevo e reescrevo há mais de cinco anos, e conta uma história de amor na periferia fabril de São Paulo. Quanto a “Cheiro de chocolate e outras histórias”, este é um livro que revela o meu sentimento de amor e ódio por São Paulo. Afinal, faz quarenta anos que vivo na metrópole e, por isso, os contos mostram a minha relação com a cidade. No primeiro texto, por exemplo, trato com delicadeza a história de antigos namorados que se reencontram na Avenida Paulista, e que recordam de momentos vividos em Paris e dos projetos que tinham juntos. Sobre este livro, o jornalista, escritor e crítico literário Renato Pompeu escreveu que “A literatura sempre avança em relação à mais requintada teoria literária. O principal teórico do realismo crítico, o húngaro György Lukács, julgava que não era possível fazer arte a partir do singular, por não ser universal. Somente a partir do singular-universal, ou seja, a partir do particular, é que seria possível fazer arte. Mas Roniwalter Jatobá, neste livro “Cheiro de chocolate e outras histórias”, prova o contrário. Ele chega a estesias melancólicas e encantadoras, a puros enlevos, a partir de uma feérica feira de singularidades; o conjunto se torna universal.” 

Ligados: Pela editora Nova Alexandria, você publicou cinco volumes de uma coleção chamada “Jovens sem Fronteiras”. As obras são biografias romanceadas de personagens relevantes (ainda que diversificados), seja na política ou nas artes, ou elas se restringem à adolescência dos homenageados, como os próprios títulos acusam? 

Roniwalter Jatobá: A coleção “Jovens sem fronteiras”, da qual fazem parte cinco dos livros que escrevi – O jovem Che Guevara, O jovem JK, O jovem Fidel Castro, O jovem Luiz Gonzaga e O jovem Monteiro Lobato – tem como objetivo contar a infância e a adolescência de pessoas interessantes da história num caldeirão em que se misturam experiências de vida, fatos e, para torná-lo de agradável leitura, uma pitada de ficção. Na verdade, esses livros relatam toda vida do biografado, mas com enfoque maior na infância e adolescência, mostrando como foi a formação dessas figuras e como elas se prepararam para chegar a um momento marcante da história. 

Ligados: Acredito que, antes de você, poucos escritores tenham retratado o proletariado brasileiro sob o enfoque ficcional. Como resultado, os textos possuem forte carga social com certo tom de confissão; um misto entre memória e invenção. Tamanho impacto poderia ter sido provocado caso a sua literatura não fosse fruto de sua vivência como migrante nordestino e operário metalúrgico? 

Roniwalter Jatobá: Sou um dos poucos autores que escrevem sobre o migrante nordestino. Também acho que poucos viveram a experiência operária. Ou seja, viver na periferia e trabalhar numa fábrica. Como já disse anteriormente, leitura e vivência me fizeram seguir por esse rumo na literatura. Por isso, um olhar que já esteve presente em nossa literatura de ficção, sobretudo a partir dos anos 30, e que tanto ajudou na formação de uma consciência nacional. 

Ligados: Nestes mais de trinta anos de atividades literárias, como você classifica o cenário artístico nacional da atualidade? 

Roniwalter Jatobá: Vamos indo. Há coisas boas. O bom do trabalho artístico é que ele precisa de maturação de décadas. Um sucesso momentâneo não quer dizer que certa obra ficará na história. Por isso, não devemos ficar à mercê da glória repentina. Trabalhar é preciso. 

Ligados: Existem projetos em andamento? 

Roniwalter Jatobá: Atualmente, escrevo um romance histórico, cuja história se passa em 1926, na Chapada Diamantina, Bahia, durante a grande saga da Coluna Prestes na região. 

Ligados: Poderia deixar uma dica para os novos escritores? 

Roniwalter Jatobá: Leiam. 

Ligados: Gostaria de encerrar com mais algum comentário? 

Roniwalter Jatobá: Já disse isso em algum lugar, mas não custa repetir. O ato de ler poesia e prosa é uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano. Para o escritor Mario Vargas Llosa, a literatura é uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e democrática. “Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais”, diz o escritor peruano. “Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: Todos são essencialmente iguais.” 


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 28/12/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com
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