23ª Entrevista Literária - Alexandre Lobão

Alexandre Lobão, nascido no Rio de Janeiro em 1969, é um dos escritores do Instituto Casa de Autores, ONG criada para estimular a leitura no Brasil. Com uma produção bastante eclética, publicou um romance (“O Nome da Águia”), um livro de contos (“A Caixa de Pandora e outras histórias”), um infantojuvenil (“Uhuru”) e um livro infantil (“A Verdadeira História de Papai Noel”), além de figurar em nove coletâneas, cinco delas oriundas de concursos literários. 

Programador de jogos de computador, o autor escreveu também diversos livros técnicos sobre o assunto, sendo que seis deles foram lançados nos Estados Unidos e o último foi também publicado em português. 

Além de literatura, Lobão transita em outras mídias, tendo produzido diversos roteiros para quadrinhos, cinema e animação.

O autor Alexandre Lobão


Ligados: A pergunta base de todas as entrevistas: Quando surgiu o seu interesse pela literatura e em quais circunstâncias a escrita se profissionalizou em sua vida? 

Alexandre Lobão: Eu sempre fui um leitor ávido, e tive sorte de nascer em uma família que tinha muitos livros. Assim que aprendi a ler, entre seis e sete anos, devorei a coleção de livros infantis que meus pais tinham, com cerca de 50 livrinhos de contos clássicos. Até o fim daquele ano eu havia acabado com uma segunda coleção de contos, estes para crianças maiores, também com 50 livrinhos; e então parti para a coleção de clássicos da literatura universal. Meu primeiro livro de verdade foi “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson. Lembro perfeitamente de minha mãe perguntando se o livro não era “grande demais para mim”, e eu respondendo que, se eu gostava, o tamanho não interessava. 

Quando eu tinha nove anos, a professora de português da quinta série usou uma de minhas redações como texto para uma prova da escola, e acho que foi neste momento que nasceu em mim a vontade de escrever. Aos poucos fui escrevendo histórias curtas, que apareceram em jornais de escolas e outros lugares, e que desembocaram em meu primeiro livro, “A Caixa de Pandora”, quando eu já estava na casa dos 30 anos. 

Quanto à “profissionalização”, eu comecei a procurar outros escritores e fazer parte de associações da classe quanto tinha vinte anos, mas acredito que minha profissionalização só começou com este primeiro livro, quando percebi que não me bastava ser “escritor de fim-de-semana”, eu queria aprender os meandros da arte, conhecer as técnicas que faziam você não querer desgrudar de um livro, entender os detalhes do mercado editorial que pudessem me ajudar a conseguir uma editora... Uma longa história! 

Ligados: Analisando um pouco a sua biografia, percebe-se que você possui uma produção bastante eclética, tendo publicado diversos livros literários e técnicos, além de transitar em outras mídias escrevendo roteiros para quadrinhos e até mesmo cinema. De onde surge tanta inspiração? Todos os gêneros são prazerosos de se criar? 

Alexandre Lobão: Eu não acho que eu tenha mais inspiração que qualquer pessoa; o que talvez aconteça é que eu aproveite melhor as ideias que me vêm. Algumas ideias aparecem prontas, na forma de uma história completa, como foi o caso do conto “Memórias de um soldado em Canudos”, de meu primeiro livro. Eu estava dirigindo quando de repente a ideia me veio, como se diz, “do nada”. Parei o carro no acostamento e escrevi os pontos principais da história em uma página ou duas; para não perder nada, e mais tarde passei a limpo. Outras ideias vão crescendo aos poucos; a ideia que deu origem ao livro “O Nome da Águia”, por exemplo, só após três anos de pesquisas é que ela se consolidou na forma final da trama do livro – então, gastei mais um ano e meio escrevendo. Acho que o fato de eu nunca esquecer uma boa ideia ajuda, elas ficam germinando na cabeça até estarem prontas para serem transcritas. 

Quanto aos gêneros, tenho um carinho especial pelas histórias que tem um “quê” de fantástico; acredito que do dia a dia já temos muitos nos jornais, quando escrevo quero falar o extraordinário, das coisas que fogem à nossa percepção usual. Mesmo quando escrevo histórias mais usuais, em qualquer gênero, busco incluir algo excepcional, nem que seja na emoção ou na forma de ver a vida dos personagens. 

Ligados: Aproveitando o assunto, entro em um questionamento que divide opiniões há muito tempo: História em quadrinhos é ou não é literatura? 

Alexandre Lobão: Não, obviamente Histórias em Quadrinhos não são literatura, da mesma forma como cinema não é literatura. São artes diferentes, embora todas estejam muito associadas. O que devemos lembrar é que há formas de contar histórias que só funcionam nas HQs, da mesma forma como há formas que só funcionam nos cinemas e outras que só funcionam na literatura. Quem duvida, basta conferir as páginas que incluem a história-dentro-da-história do “Cargueiro Negro”, dentro de “Watchmen”: o leitor vê uma história e ‘escuta’/lê os sons da outra, em quadrinhos entremeados... Estas e outras coisas do gênero só funcionam nos quadrinhos. E quanto a quadrinhos poderem ser “arte nobre” ou para adultos, acho que isso ficou estabelecido quando “Maus”, uma HQ de Art Spiegelman sobre a vida de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, ganhou o prêmio Pulitzer em 1992. 

Ligados: Quais os títulos publicados até o momento? 

Alexandre Lobão: Bom, além da participação em nove coletâneas de contos (sendo cinco delas por premiação em concursos), publiquei “A Caixa de Pandora e Outras Histórias”, com nove contos na versão impressa e 13 contos na versão para Kindle; “A Verdadeira História de Papai Noel”, um livro infantil baseado na história que inventei para que minha filha não perdesse a “magia do Natal” quando ela perguntou se o Papai Noel existia de verdade; “Uhuru”, um infantojuvenil contado em dois tempos, no passado e no presente, com a história de um menino que descobre as origens de seu nome (Uhuru); e “O Nome da Águia” (WWW.oNomeDaAguia.com), um romance de ação com larga pesquisa histórica, escrito no estilo dos thrillers americanos de leitura rápida, mas com a pitada de fantástico que gosto de incluir nas histórias. 

Fora estes, há os livros técnicos: foram seis livros sobre programação de jogos de computador publicados nos Estados Unidos, sendo que o último deles foi traduzido para o português. 

Ligados: Qual o objetivo cultural da ONG Casa de Autores, da qual você faz parte como escritor? 

Alexandre Lobão: A Casa de Autores foi fundada por escritores e professores com o objetivo de estimular a leitura no Brasil, organizando eventos literários e realizando palestras e oficinas em escolas, entre outras atividades. Nesta linha, já organizamos quatro edições da Flipiri, a Feira Literária de Pirenópolis, além de diversas outras feiras literárias em cidades próximas a Brasília, onde fica nossa sede. 

Ligados: Depois de ter sido selecionado em diversos concursos literários, você também figurou como jurado em alguns certames, incluindo o SESC-DF de contos infantis em duas de suas edições, e de contos adultos em duas outras. Com a subjetividade em jogo, é correto afirmar que os melhores trabalhos são, realmente, os que vencem? 

Alexandre Lobão: O problema da questão é: o que significa ser “melhor”, quando se falando em contos? Alguns concursos sugerem critérios de avaliação (desde a correção ortográfica até a coerência e originalidade da história), o que ajuda um pouco, mas sempre há um largo espaço para a subjetividade. 

Obviamente, já avaliei contos que me pareceram excelente e não chegaram a ficar entre os escolhidos, e já vi contos que julgava serem fracos ficarem nos primeiros lugares, mas como são vários jurados, os que vencem são os contos que parecem ser os melhores para mais jurados, então sou forçado a crer que há certa justiça na escolha dos vencedores. 

Ligados: Você possui um blog chamado “Vida de Escritor”, repleto de dicas para autores, principalmente os mais novos. Em sua opinião, qual a informação mais preciosa que um aprendiz de escritor precisa ter? 

Alexandre Lobão: Pergunta difícil! Inclusive, em meu blog tenho uma coleção de postagens com o título “7 coisas que aprendi”, onde escritores convidados contam as sete coisas que acham ser mais importantes para um escritor; e mesmo sendo sete, ainda assim escuto muita reclamação que “sete é pouco”! 

Mas se eu precisasse escolher uma só coisa para um aprendiz de escritor, eu escolheria duas: primeiro, deixe o orgulho de lado e nunca julgue saber tudo. Na escrita, como em qualquer outra profissão, estudar técnicas VAI tornar seu trabalho melhor. E, também, em primeiro lugar, persista. Escrever é divertido, mas é um trabalho. Escreva sempre, não desista frente aos problemas (que serão muitos, posso garantir), que um dia você chega lá. 

Ligados: Quais as suas aspirações em longo prazo? 

Alexandre Lobão: Tenho algumas metas a atingir na área de cinema e quadrinhos, mas minha maior aspiração continua sendo viver apenas do meu trabalho de escritor, sem necessidade de um segundo emprego. 

Ligados: Existem livros inéditos na gaveta? 

Alexandre Lobão: Alguns, na verdade, pois sempre escrevo mais de um livro ao mesmo tempo. Tenho quatro livros infantis prontos, que escrevi de um rompante ano passado, e um romance que adorei escrever e que tem o título de trabalho “As Incríveis Memórias de Samael Duncan”, a história de um senhor de 130 anos de idade (embora isso não fique explícito no livro) que vai recordando partes de sua vida enquanto escreve suas memórias. Cada capítulo é uma história que parece isolada, mas que aos poucos permite ao leitor montar um panorama da vida do personagem e entender qual é o seu grande anseio. O problema é que, ao escrever suas memórias, Samael acaba descobrindo segredos de seu passado que o levam a questionar se sua vida inteira não foi baseada em uma mentira, e aí a coisa começa a ficar ainda mais animada... Mas deixemos as surpresas para quando o livro sair!

Perguntas rápidas: 
Autor(a): Stephen King;
Ator(Atriz): Johnny Deep; 
Banda: Eurythmics;
Música: “Souvenir de Paganini”, de Choplin, e “Dancing in the Dark”, de Bruce Springsteen;
Filme: “Imensidão Azul”. 

Links na internet: 
Twitter: @AlexandreLobao; 
Outros: Blog “Vida de Escritor”: http://dicasdoalexandrelobao.blogspot.com

Links dos seus produtos nas lojas online: 
Saraiva: Aqui;
Submarino: Aqui;
Cultura: Aqui.

Ligados: Considerações finais. 

Alexandre Lobão: Bom, acho que falei até demais! Apenas gostaria de agradecer pelo convite e a oportunidade de entrar em contato com todos que acompanham o Ligados. 

Além disso, gostaria de lembrar que estou à disposição de todos para esclarecer dúvidas em meu blog, HTTP://DicasDoAlexandreLobao.blogspot.com

Saúde, paz e sucesso a todos!


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 25/01/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com
0