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10 de fev de 2013

27º Ensaio Cultural: Isaac Asimov e a Era Digital


Disse certa vez Isaac Asimov, numa entrevista a Bill Moyers em 1988 (clique aqui para ver a entrevista completa): "Quando tivermos computadores em todas as casas, cada um deles conectado a enormes bibliotecas em que você possa perguntar qualquer coisa e receber respostas, receber materiais de referência. Poderia ser algo que você está interessado em saber, desde uma idade precoce, mesmo que pareça bobagem a outra pessoa... é o que você está interessado e você pode perguntar, você pode descobrir, e pode fazer isso na sua própria casa, no seu próprio ritmo, na sua própria direção, no seu próprio tempo... Então todos adorariam aprender. Hoje, o que chamamos de aprendizado é forçado. e todos são forçados a aprender as mesmas coisas, nos mesmos dias e no mesmo ritmo em uma aula, e todos são diferentes."


Isaac  Asimov (1920-1992),  autor de "Eu,  Robô",
 "Fundação" - entre outros livros - além de brilhante 
escritor, foi um visionário e previu o impacto da internet.

Embora as salas de aula não tenham mudado tanto desde 1988, pode-se dizer que estamos vivendo naquilo que Asimov previu. Nunca antes tivemos tanto acesso à informação. Enquanto outrora tínhamos de ir a uma biblioteca para fazer uma rápida consulta a um livro, agora nós temos praticamente qualquer informação ao nosso dispor, havendo simplesmente um computador conectado à rede. O Internet Archive mantém uma biblioteca virtual com verdadeiras relíquias bibliográficas; a Wikipedia (e diversas outras enciclopédias no formato wiki), por sua vez, permite que você possa consultar uma enciclopédia sempre atualizada, sem a necessidade de procurar em milhares de volumes; em diversos sites, cursos online de diversas universidades do mundo podem ser atendidos sem necessidade de viagem, e ainda se adaptam à sua agenda semanal.

É espantoso como temos mil formas de aprender por conta própria, e com isso temos uma formação muito mais abrangente do que costumava, podendo ter o aprendizado de tudo aquilo que nos convém, pois está diretamente ao nosso alcance. Assim, cresce o número de autodidatas altamente capacitados ao entrarem nas universidades, não raras vezes muito mais bem informados que seus professores sobre diversos assuntos. Mesmo entre os que não chegam a concluir a universidade ou entrar nelas, há uma extensa produção intelectual, sempre com observações importantes que ninguém antes havia feito. A produção científica avança exponencialmente a cada segundo, e as soluções para a vida chovem nas livrarias, levando o desenvolvimento pessoal a outro nível. Mas, nem tudo tem sido o mar de rosas previsto por Asimov. Ao mesmo tempo que isso acontece, favorecendo o progresso científico e o desenvolvimento humano, há a disseminação de mentiras que culminam com a construção de uma barbárie intelectual, contraparte real do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Perdido nesse mar de afirmações contraditórias e com uma cosmovisão enfraquecida como resultado da ausência de religiosidade, o indivíduo sente-se obrigado a tomar para si uma posição que muitas vezes lhe dificulta encontrar a verdade. Uma possiblidade - a mais confortável - é a indiferença. Outra é o relativismo, a crença de que a verdade é relativa e não há fatos objetivos. É a própria negação do valor e da existência da verdade, o que leva, inevitavelmente, à aceitação daquilo que é somente mais confortável a cada um, independente de seu caráter potencialmente destrutivo. Outros, não relativistas, buscam identificar-se com grupos e não saem dos seus dogmas sob o risco de perderem o senso de completude que estes lhes proporcionam. Tornam-se dessa forma, servos da propaganda, que assume a sua segunda forma dentre as duas que define Aldous Huxley: "(1) propaganda racional a favor da ação que é de acordo com o próprio interesse esclarecido daqueles que a fazem e daqueles a quem é dirigida, e a (2) propaganda não-racional, que não é de acordo com o próprio interesse esclarecido de ninguém, mas que é ditada por e apeia para, paixões, impulsos cegos, desejos ou medos inconscientes."

Podemos observar, com isso, que quanto à seletibilidade de informações, um dos critérios mais comuns é o da afinidade discursiva. O sujeito que nasceu na geração da informação, buscando uma unidade e uma inserção social, em vez de buscar abstrair o que é real e o que não é em um discurso, opõe-se a toda e qualquer afirmação, classificando-a como mentira se for desfavarável à ideologia do grupo em que se inclui. Caso se sinta confortável com o stablishment e oponha-se a qualquer coisa fora dele, torna-sese particularmente sensível ao que Weber chamava de Dominação Tradicional. Se é com aquilo que se sente bem e lhe parece mais "humano", é a Dominação Carismática que lhe domina. Há ainda o terceiro tipo de autoridade na classificação weberiana, a Legal-Racional, que faz de muitos agentes passivos perante figuras de superior hierarquia. De forma alguma creio que se deva ignorar estas dominações ou opor-se a elas, mas julgar se estas cumprem aquilo que lhe é o dever. Afinal, havendo uma quebra desse reconhecimento, corremos o risco de pertencermos a um desses grupos: os que seguem líderes somente pelo seu carisma, os que seguem líderes somente pela seu poder ou somente pela sua representação de uma posição tradicional. 

Ora, o carisma ou personalidade dominante não garante capacidade; a posição tradicional - hoje - não garante uma credibilidade porque não segue a unidade da tradição; e a Legal-Racional não é válida quando está sempre em contradição consigo mesma, tornando-se uma Legal-Irracional. Isso não é regra, mas nos faz pensar que nossa seletividade não devem vir exclusivamente somente de uma dessas identificações. É necessário ter método para reconhecer a verdade - e isso é o que realmente está em decadência na Era da Informação - e deve ser este método adequado, afinal, dados pouco ou nada representam se não forem interpretados adequadamente e se não observados em seu contexto geral. Lembremos daquela propaganda da Folha de São Paulo, que dizia “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou a economia e devolveu orgulho ao seu povo. Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de seis milhões para novecentas mil pessoas. Este homem fez o produto interno bruto crescer 102 e a renda per capita dobrar, aumentou o lucro das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos e reduziu uma hiper inflação para no máximo 25% ao ano. Este homem adorava música e pintura e quando jovem imaginava seguir a carreira artística", para, logo em seguida, mostrarem a foto de Adolf Hitler. Não há nisso muita semelhança com o que muitas páginas no Facebook fazem com imagens, gráficos e tabelas comparativas, muitas usando dados falsos ou só uma parte deles, de forma a agregar um maior número de seguidores para determinado posicionamento? Há, claro, aqueles que o fazem de forma honesta, todavia é impossível identificá-los a priori.

É possível, enfim, concluir que de fato estamos desfrutando dos bens que a tecnologia da informação nos proporciona, porém ainda não houve tempo para se adaptar ao impacto que esta gerou em nossas vidas. Se há uma forma precisa de se definir a nossa complexa relação com o conhecimento no Século XXI, eu a digo uma mistura de Fundação e Admirável Mundo Novo, com os passos iniciais do que Ray Kurzweil chama de Singularidade e uma dose dupla de pós-modernismo cuja ressaca vai demorar bastante para passar. Pessimista quando à natureza humana, não creio que haverá um ponto em que possamos fazer a perfeita discriminação de informações. Esta, contudo, há de se tornar cada vez mais precisa conquanto tenham grande alcance as diversas fontes que possam refutar, contradizer e criticar umas às outras. É a liberdade de expressão que garante que possamos alcançar a verdade através de opiniões divergentes, mas, para que isso ocorra da melhor forma, havemos de reconhecer que o problema está em nós mesmos e é de nossa responsabilidade sermos honestos e buscarmos o que é verdadeiro.

               Autor: André Rodrigues | Criação: 10/02/2013 | Objetivo: www.ligadosfm.com
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