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24 de fev de 2013

28º Ensaio Cultural - A Utopia de Thomas More como uma defesa das sete virtudes



Em minhas leituras e releituras de Utopia, bem como estudos teóricos sobre a obra, fiquei fortemente inclinado a dizer com grande certeza que aquela não é de forma alguma uma obra socialista em essência, ao contrário do que hoje se popularmente acredita sobretudo por influência de Karl Kautsky. É mesmo verdade que existe na ilha criada por Sir Thomas More uma organização comum de bens, mas o significado disso vai além das simples aparências. Tomemos como ponta de partida para esta interpretação os parágrafos finais do livro, que dá um novo sentido a tudo aquilo descrito anteriormente:

“Quando Rafael terminou a sua narrativa, muitas coisas nas leis e costumes da Utopia me pareciam absurdas, como, por exemplo, o seu sistema militar, os seus sacrifícios e religiões e, principalmente, o princípio fundamental das suas instituições, isto é, a sua comunidade de vida e de bens, sem necessidade de dinheiro e de outras coisas, como a nobreza, a pompa, o esplendor, a honra e a majestade, coisas que, aos olhos do vulgo, constituem a verdadeira grandeza de uma república. […] Entretanto, pois que não consigo concordar com tudo que Rafael disse e não duvidando da sua sabedoria e profunda experiência das coisas humanas, sou obrigado a reconhecer que há, na República da Utopia, muitas coisas que eu desejaria para nossos países, considerando-se ainda que a minha expectativa vai além da esperança de o conseguir.”

Ora, se a comunidade de vida e de bens é aquilo que há de mais absurdo na ilha de Utopia, por que deveríamos tomar isto como parte essencial do Magnum Opus de Thomas More? Mais importante, me parece,é a afirmação final de que há outras coisas que deveriam ser seguidas em outros países. De fato, se excluirmos de A Utopia todas as estranhas instituições, o que nos resta é sobretudo a crítica mordaz ao estado de decadência moral e institucional da Europa, sobretudo a Inglaterra, no Século XVI. Havemos de nos lembrar que esta é a época imediatamente após a Guerra das Duas Rosas, concomitante com os movimentos reformadores da Igreja, com as políticas de cercamento e de uma ordem social transitória entre o feudalismo e a modernidade. Em tal período, abundou a corrupção e a criminalidade na Inglaterra. Nesse contexto surge o movimento humanista cristão, liderado por Erasmo de Roterdão, amigo próximo de Thomas More. Tal escola opunha-se à criação de outras igrejas - claramente, era anti-protestante - e mantinha como base os  princípios humanistas e a ética cristã, aproximando-se do cristianismo primitivo e se resumido no lema "Renascens pietas, restitutio Christianismi, Christum ex fontibus praedicare" (fazer renascer a piedade, restaurar o Cristianismo e pregar Cristo a partir das fontes). É com base nesses valores que se estrutura a narração utopiana de More. Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental "trata-se na Utopia realmente de uma utopia: é verdade que Morus teria gostado de juntar, no dizer de um dos seus biógrafos, as quatro virtudes platônicas (Sabedoria, Bravura, Moderação, Justiça) às três virtudes paulinas (Fé, Amor, Esperança), para criar uma Inglaterra feliz. Platão e Paulo juntos; é humanismo cristão."

Para melhor ilustrar como se dá essa união das virtudes pagãs com as teológicas como princípio moral restaurador, tomemos os seguintes trechos, interpretados como uma exaltação das sete virtudes e crítica a seus pecados opostos:

“Privar-se a si próprio de algo para dá-lo a outrem é um dever da humanidade e nobreza de coração. [...] A consciência de ter procedido bem, a lembrança do reconhecimento daqueles a que se faz o bem trazem muio mais prazer à alma se não o tivesse feito."
(Exalta a generosidade e critica a avareza.)

“Quando as mulheres trabalham, os homens deixam por seu turno de trabalhar. Além disso, há a multidão de padres e religiosos que nada produzem. Acrescentai todos os ricos, especialmente os proprietários [...], juntai-les ainda seus criados, esse bando de desordeiros, os mendigos robustos e válidos [...]; Descobrireis, em suma, que o número dos que trabalham para prover aos bens necessários à vida do gênero humano é bem menor do que pensável."
(Exalta a diligência e critica a preguiça.)

"Nesse gênero de falsos prazeres, os utopianos incluem a vaidade, de que atrás falei, que faz que os homens se julguem melhores por terem melhor aparência, vaidade duplamente errada, pois não só erram em julgar que seu aspecto exterior é o melhor como em considerarem-se superiores.” (Exalta a humildade e critica a vaidade.)

Parece-me clara essa função moralizadora da Utopia de Sir Thomas More nos trechos acima e diversos outros encontrados pela obra. O autor, sabemos, era um católico fervoroso e sujeito de grande retidão moral, tendo-se mantido fiel ao que acreditava até o fim de sua vida (por tal razão perdeu a cabeça na guilhotina). Essa Thomas More moralista é precisamente o mesmo que escreveu Utopia, e que mantinha-se calado sobre assuntos políticos se isso viesse a lhe trazer complicações, a exemplo da sua clara e silenciosa oposição à Igreja Anglicana. Em Utopia o lorde chanceler manteve também seu silêncio pessoal sobre vários assuntos ao diluir todo o seu sarcasmo na descrição de uma sociedade insular no Novo Mundo na voz de outrem (Rafael Hitlodeu). A arte do silêncio e do afastamento do sujeito e seu discurso são praticados com tão grande perfeição por Thomas More que é preciso meditarmos entre o dito, o dito entre as entrelinhas e o não-dito. Assim sendo, grande parte do que está escrito em Utopia e do que diz respeito à vida interior do escritor permanece um mistério. Só não podemos duvidar que ele foi um homem de fé e sempre consistente com sua ética.

Autor: André Rodrigues | Criação: 24/02/2013 | Objetivo: www.ligadosfm.com
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