28ª Entrevista Literária - Luisa Geisler

Luisa Geisler nasceu em 1991, em Canoas, RS. Com apenas dezenove anos, foi vencedora do Prêmio SESC de Literatura com o seu livro de estreia “Contos de Mentira” (a obra foi ainda finalista do Prêmio Jabuti, certame literário mais importante do país, em 2012). No ano seguinte, venceu o mesmo concurso promovido pelo SESC, desta vez na categoria Romance, com o livro “Quiçá”. Atualmente, a gaúcha é universitária dos cursos de Ciências Sociais e Relações Internacionais.

A autora Luisa Geisler - Foto Divulgação

Ligados: Quem é Luisa Geisler? 

Luisa Geisler: Escritora e universitária. Mais universitária que escritora, mas suficientemente ambos. 

Ligados: Você disse, certa vez, que participou da Oficina de Criação Literária do Assis Brasil, onde, inclusive, foram revelados nomes como Daniel Galera e Michel Laub. Foi a partir deste curso que surgiu o seu interesse pela escrita? 

Luisa Geisler: Não (risos). Eu não faria uma oficina de criação literária se não tivesse interesse gigantesco em ler e escrever. A oficina me ajudou muito a ver a profissão de escritor, o processo de escrever, factíveis. Escrevi na escola e na faculdade, tinha incentivos dos professores e tal, “a boa redação”. Eu me lembro de meu pai e eu na Feira do Livro de Porto Alegre, eu babava pelos livros. Claro que a oficina me fez enxergar método na escrita, como um fenômeno concreto com uma “carreira”, algo em que pode se trabalhar e aprimorar. No processo, perdi muito do amadorismo e diletantismo. Mas o interesse de escrever já era antigo. 

Ligados: Até o momento, você publicou os livros “Contos de Mentira” (vencedor do Prêmio SESC de Literatura e finalista do Jabuti) e “Quiçá” (romance finalista do Prêmio Machado de Assis e também vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Poderia falar um pouco sobre cada um? 

Luisa Geisler: O “Contos de Mentira” aborda a mentira de vários ângulos e possibilidades. O conceito surgiu de uma reportagem que li a respeito da quantidade de mentiras que as pessoas contam. A reportagem afirmava que as pessoas contavam em torno de oito vezes ao dia e a mentira mais falada era "está tudo bem". Disso, surgiu a possibilidade de um livro que traz a mentira como um todo. Há também personagens que não sabem lidar com a verdade, como um personagem que escreve pequenas verdades dentro de origamis ou personagens que não aceitam as mentiras que eles mesmos contam. 

A história do “Quiçá” gira em torno de Arthur e Clarissa. A obra é protagonizada pelo jovem Arthur, parente do interior, anatematizado pela família, e Clarissa, a solitária prima de 11 anos, boa aluna e boa filha. O primo passa a ser, com o decorrer das semanas, o único olhar a definir e entender Clarissa, ante a discreta desconfiança dos pais da menina, ausentes do seu dia a dia. As cenas fragmentárias do romance revelam vidas descosidas umas das outras: nas relações a dois, nas relações familiares e nas amizades, tudo soa precário. Mesmo a ligação que une Arthur e Clarissa não se dá por inteiro, e alguns segredos desconfortáveis assomam como breves fantasmas ao longo do texto. 

O “Contos de Mentira” foi um processo mais "inseguro" que o “Quiçá”. Neste segundo, eu tinha alguma segurança no fazer, no ler; mas o anterior foi um grande tiro no escuro. Se não fosse pelo Prêmio SESC, talvez ele nunca tivesse saído de uma gaveta. 

Ligados: Estas premiações te motivam a continuar escrevendo, já que provam, de certa forma, que você está trilhando o caminho certo para se conquistar os objetivos almejados? Ainda assim, costuma deparar-se com muitas pedras nesta “estrada”? 

Luisa Geisler: Acho os prêmios majoritariamente positivos, pois incentivam o escritor (iniciante ou não). Os sites incentivam a discussão sobre prêmios literários e seus resultados, e isso é muito importante, pois democratiza o fazer literário, o que é sempre positivo. Claro que prêmios estimulam, mas lembro que já participei de diversos concursos de contos e perdi, por exemplo. O trabalho do escritor é aquela velha história de 10% inspiração e 90% transpiração, é persistir em escrever, é revisar textos, é encontrar concursos e oportunidades. Por mais que eu destaque as vitórias, elas sempre vêm acompanhadas. Os prêmios, ganhos ou perdidos, me incentivam a continuar a escrever, porque eles mostram que trabalho de qualidade recebe reconhecimento, mostram que tenho onde melhorar. Em termos de “pedras”, elas não passam quando o autor se estabiliza no mercado literário. A própria estabilidade é um problema. 

Ligados: A sua rotina de criação literária, como funciona? Você é bem organizada no sentido de agendar horários destinados exclusivamente à produção textual? 

Luisa Geisler: Sou muito cdf nesse sentido, planejo mesmo que vá mudar depois; isso acontece ainda em contos também. Pra mim, é essencial que se planeje e tenha noção de onde chegar. Com isso claro, eu posso mudar os planos (marginalmente) sem perder muito do texto. Se eu mudar o objetivo, daí isso precisa de uma grande reestruturação do texto. Em termos de rotina, sou bastante bagunçada, corro atrás de prazos, volto atrás, não tenho tempo, luto com a faculdade… 

Ligados: Sobre a antologia “Os melhores jovens escritores brasileiros”, editada pela revista Granta, a qual você foi selecionada como sendo a mais jovem autora da seleção. Conte-nos como foi esta experiência. 

Luisa Geisler: Senti uma “pressão gratificante”. Uma mescla de ser reconhecida (e felicidade por isso) com o saber de que agora as coisas ficaram mais sérias. Meus livros agora foram resenhados no Estado de São Paulo, na Folha. Antes, alguns blogs leram, algumas pessoas conhecidas, mas o geral foi difícil. 

Ainda mais porque a escolha do texto não foi fácil. Eu havia passado algumas semanas mexendo num conto, escrevendo-o e tal. Até que quando ele estava pronto, uma amiga (que estivera a acompanhar a produção do texto) me disse: “não manda esse, esse tá chato, não vai ser escolhido”. Ela me disse isso alguns dias antes do final da entrega! Como eu ia fazer outro texto? E eu não tenho um estoque de textos pra mandar a bangu. O que eu tinha era alguns textos que eu guardava para o meu próximo livro de contos. Meu favorito, que estava guardado pra ser o primeiro, foi o escolhido para edição. Editei-o à exaustão e mandei. 

O processo de seleção foi e não foi demorado. Eu me inscrevi no meio de outubro e soube dos resultados em março, por telefone. Mas isso é de praxe, esse período: não foi acima da média. Não sei muito do processo em si, feito pelos jurados; já li em alguns lugares, mas nunca me chamou a atenção. Ouvi elogios no coquetel no sentido de que era um texto muito inesperado. Logo após o resultado, eu e a equipe de edição partimos para editar, revisar os textos, biografias e fotos até a publicação final. Mas foi algo muito rápido, até hoje tenho vontade de poder mexer mais naqueles textos. 

Ligados: Quais autores te inspiram? 

Luisa Geisler: Hemingway, Tchekhov, Joyce, Gabriel García Márquez, Edgar Allan Poe e David Foster Wallace foram autores que me formaram como leitora, e sempre foram de uma forma ou de outra, referência. Entre vivos, hoje gosto muito do trabalho do André Sant'anna, André de Leones, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não sei se dialogo muito com eles, mas são autores que leio bastante e, mais cedo ou mais tarde, são influências. 

Ligados: Há alguma dica que você queira repassar aos escritores iniciantes? 

Luisa Geisler: Ler muito. Ler absurdamente. E escrever. Há muitas pessoas que gostam de escrever e não escrevem, não têm força de vontade. Não vai vir uma inspiração divina e fazer futuros escritores. É trabalho sem glamour. E continuar escrevendo, se aprimorando. 

Ligados: Quais os seus projetos para o futuro? Está trabalhando em alguma obra? 

Luisa Geisler: Estou escrevendo um livro, um próximo romance, sobre o qual não posso adiantar muito no momento (risos).


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 05/04/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com
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