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13 de set de 2013

35ª Entrevista Literária - Adriana Lisboa

Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro, viveu na França (onde atuou como cantora de MPB) e reside atualmente no Colorado, Estados Unidos. Graduada em música pela UniRio, possui ainda mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Literatura Comparada. É escritora, autora de onze livros, sendo seis deles romances, uma coletânea de minicontos e quatro infantojuvenis. Ganhou, em 2003, o Prêmio Literário José Saramago pelo romance “Sinfonia em branco”, além do Moinho Santista (2005) pelo conjunto de sua obra, e o de autor revelação (2006) da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) por “Língua de trapos”, entre outros prêmios. Sua produção foi traduzida para oito idiomas e lançada em diversos países.

A autora Adriana Lisboa - Foto Divulgação

Ligados: Adriana Lisboa por Adriana Lisboa?

Adriana Lisboa: Uma pessoa bem pequena, que tenta ser corajosa e navegar por este mundo maluco da melhor forma possível.

Ligados: Aos nove anos de idade você escreveu os primeiros poemas, na escola. À época, já tinha em mente o desejo de tornar-se escritora, como declarou, certa vez, em entrevista. De onde surgiu este fascínio pela literatura? Poderia nos falar um pouco sobre esta fase de sua vida?

Adriana Lisboa: Na verdade eu achava a ideia de ser escritora algo bem exótico, talvez como pensar em ser astronauta. Não pensava nisso seriamente, mas apenas como as crianças pensam. E o fascínio, acho que veio de fábrica, mesmo. Quando li poemas pela primeira vez, me apaixonei, e quando comecei a escrever nunca mais quis parar.

Ligados: Os seus pais eram musicistas informais e, naturalmente, desde muito cedo você demonstrou interesse pela referida arte, chegando a trabalhar como cantora de MPB na França e graduar-se em música, além de lecionar aulas, durante algum tempo, nesta área. De certa forma, você acredita que os conhecimentos que possui relacionados à música te ajudam a compor seus escritos, já que o prosador deve, também, ter a sensibilidade de captar o ritmo e a sonoridade do texto, afim de que se escolha o devido vocábulo para cada ocasião? 

Adriana Lisboa: Acho que me ajudam, sim. Não que eles sejam necessários ao escritor, mas no meu caso, não há dúvidas de que fazem de mim a autora que eu sou (para o bem ou para o mal). Sou muito atenta à musicalidade das palavras e do texto, ao seu ritmo, gosto de ler em voz alta para ver se funciona.

Ligados: Quantos e quais livros solos já publicou? 

Adriana Lisboa: Onze livros. Os romances “Os fios da memória”, 1999 (Rocco), “Sinfonia em branco”, 2001 (Rocco, recém-relançado pela Alfaguara), “Um beijo de colombina”, 2003 (Rocco), “Rakushisha”, 2007 (Rocco), “Azul-corvo”, 2010 (Rocco) e “Hanói”, 2013 (Alfaguara). Os minicontos de “Caligrafias”, 2004 (Rocco), com desenhos originais de Gianguido Bonfanti. E quatro livros infantojuvenis: a novela juvenil “O coração às vezes para de bater”, 2007 (Publifolha, a ser relançada pela Rocco em 2013), “Língua de trapos”, livro em versos para crianças, 2005 (Rocco), “A sereia e o caçador de borboletas”, também para crianças, 2009 (Rocco) - ambos ilustrados por Rui de Oliveira – e, por fim, “Contos populares japoneses”, 2008 (Rocco), ilustrado por Janaína Tokitaka.

Ligados: Em 2003 você recebeu o Prêmio José Saramago, um dos maiores certames literários atribuídos dentro do âmbito da lusofonia, com a obra “Sinfonia em branco” (1ª edição, Rocco, 2001, recém-lançado pela Alfaguara). Esta vitória cravou um marco em sua experiência como escritora profissional, abrindo as portas do mercado editorial, em termos globais? 

Adriana Lisboa: Sem dúvida, ainda que eu saiba que premiações são sempre subjetivas e arbitrárias. Mas o prêmio foi importante por muitos motivos. Foi uma surpresa que me pegou na contramão e graças a ele passei a ter uma agente internacional (a alemã Ray-Güde Mertin, e hoje Nicole Witt, que herdou sua agência). Foi depois disso que comecei a publicar fora do Brasil.

Ligados: Qual o seu comportamento cotidiano? Está sempre escrevendo, ou não segue uma rotina fixa de criação literária?

Adriana Lisboa: Não sigo uma rotina fixa, necessariamente, mas minha cabeça funciona melhor de manhã, então tento reservar essa parte do dia para a escrita. Quando estou no meio de um romance, escrevo praticamente todos os dias, ou faço revisão do que escrevi até ali. Quando não estou, escrevo poemas, rabisco ideias, outras coisas.

Ligados: O que é um bom escritor, em sua opinião? 

Adriana Lisboa: Aquele que consegue encontrar sua própria voz com criatividade e sem arrogância. Há os espontâneos, mas de modo geral penso que a consciência do que se faz e a reflexão sobre isso ajudam muito.

Ligados: Você traduziu para o português autores como Robert Louis Stevenson, Cormac McCarthy, Marilynne Robinson, Jonathan Safran Foer e Maurice Blanchot. Recentemente, no entanto, resolveu abandonar este ofício que te acompanhou por uma década. Quais foram os motivos que te levaram a esta decisão? 

Adriana Lisboa: Eu traduzia basicamente pela necessidade de ganhar dinheiro. É muito difícil viver da própria escrita no Brasil, a menos que se seja também roteirista, jornalista, cronista (mesmo morando nos EUA há quase sete anos, continuo escrevendo em português e sendo uma autora brasileira). A tradução é um trabalho interessante, que nos dá uma consciência das filigranas do texto, e nos permite quase que ouvir o cérebro do autor funcionando por trás das frases. É um grande aprendizado também de humildade. Mas depois de uma década eu já estava exausta desse trabalho, fisicamente exausta (tive dois episódios de lesão por esforço repetitivo) e felizmente hoje com os meus livros e suas traduções já está dando pra prescindir dele.

Ligados: O cineasta argentino Eduardo Montes-Bradley realizou um documentário sobre a sua vida intitulado “Lisboa”, filmado em Denver e Boulder, no Colorado (EUA), onde reside atualmente. Fale-nos um pouco sobre o filme. 

Adriana Lisboa: Eduardo me contatou depois de ter lido meu romance “Azul-corvo” com a ideia de fazer o documentário. Sua ideia era falar da minha vida “normal,” e não de literatura. Achei bastante original. O projeto dele acabou se desdobrando numa série sobre autores brasileiros contemporâneos. Este ano ele finaliza filmes com Luiz Ruffato, Milton Hatoum, Carola Saavedra e Ronaldo Correia de Brito.

Ligados: O que tem lido? 

Adriana Lisboa: Muita, muita poesia contemporânea. Adoro o trabalho da Mariana Ianelli, do Eucanaã Ferraz, dos poetas americanos W.S. Merwin, Philip Levine e Elizabeth Spires, entre muitos outros. Também ficção como “Terra de casas vazias”, do André de Leones, que está cada vez melhor, e “Train Dreams”, uma soberba novela do americano Denis Johnson, acho que ainda sem tradução no Brasil. Além disso, ando sempre com os meus livros sobre budismo na cabeceira. Um mestre tibetano que tenho lido muito é Khenchen Thrangu Rinpoche.

Ligados: Que dica você daria aos futuros escritores?

Adriana Lisboa: A mesma que deu José Saramago em certa ocasião: “Não tenham pressa, mas não percam tempo”.

Ligados: Está trabalhando em algum projeto ficcional no momento? 

Adriana Lisboa: Não. Publiquei meu mais recente romance em junho, “Hanói”, e estou dando um tempo agora. Na verdade, estou organizando os poemas do meu primeiro livro de poesia, por ora intitulado “Parte da paisagem”.

Ligados: Considerações finais. 

Adriana Lisboa: Agradeço o interesse pelo meu trabalho, o convite para a entrevista, e desejo vida longa ao blog “Ligados.” Saudações!



Autor: Thiago Jefferson - Criação: 13/09/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com
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