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26 de jul de 2013

32ª Entrevista Literária - Leila Guenther

Leila Guenther nasceu em Blumenau, Santa Catarina, e reside atualmente em São Paulo. Formada em Letras, publicou em 2006 o livro de contos "O voo noturno das galinhas" (Ateliê Editorial), traduzido posteriormente para espanhol e lançado no Peru pela Borrador Editores; lançou ainda a edição artesanal de "Este lado para cima" (Selo Sereia Ca(n)tadora, Revista Babel, 2011). Participou das antologias "Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa" (Garamond, 2006), "Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte" (Geração Editorial, 2008), "50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras" (Geração Editorial, 2012) e realizou, pela Ateliê Editorial, as edições comentadas de "Iracema", "A cidade e as serras", "Dom Casmurro", e "O Cortiço". Foi selecionada no Programa Petrobras Cultural 2012 com o livro de poemas "Viagem a um deserto interior".

A autora Leila Guenther - Foto Divulgação

Ligados: Leila Guenther por Leila Guenther? 

Leila Guenther: Alguém que tenta viver como quem está escrevendo, ou seja, de modo a fazer cada pequena coisa da vida com atenção total. 

Ligados: Você veio de uma família que, embora simples, sempre prezou pelo hábito da leitura em casa. Consequentemente, o interesse à criação literária em sua vida começou desde muito cedo, ainda na infância. Conte-nos um pouco sobre esta fase. 

Leila Guenther: Para mim, não havia diferença entre livros e brinquedos: eram coisas que me divertiam, que me levavam para outro mundo. Eu ficava tão feliz de entrar em uma livraria quanto algumas crianças numa loja de brinquedos. No princípio, ia decorando histórias que liam para mim; depois aprendi a ler, e já não dependia dos adultos; e, por fim, escrevia minhas próprias e às vezes as ilustrava. E, na escola, lia de uma vez todos os livros que indicavam como leitura obrigatória do ano. 

Ligados: Em 2006 você reuniu alguns contos anteriormente publicados em diversos veículos de comunicação, sob o título “O voo noturno das galinhas”, pela “Ateliê Editorial”. Quais temas são abordados neste seu volume de estreia, e como se deu o processo de seleção do material compilado? 

Leila Guenther: Acho que são basicamente contos sobre o estranhamento e sobre como o cotidiano mais banal pode deflagrá-lo. Tive a sorte de ter o livro lido pelo Décio Pignatari, que, numa conversa, o definiu de um jeito muito bonito: disse que ele não era nem irreal (não se vinculava à fantasia), nem realista (não se preocupava com a realidade), mas “arreal”, porque criava uma espécie de universo paralelo de ficção. Como os primeiros contos que escrevi se passavam em lugares fechados, escuros, de ambiência meio claustrofóbica, e como depois os outros eram ambientados já em lugares abertos, amplos, pareceu-me interessante ordená-los de modo que sugerissem uma trajetória que fosse da opressão à libertação. 

Ligados: A obra acima citada foi, inclusive, publicada tempos depois, no Peru. Como você enxerga esta experiência de atingir também o público de língua espanhola? 

Leila Guenther: Parece que estamos aqui, por conta do idioma, um pouco afastados do que ocorre na América Latina. Ter um livro traduzido para o espanhol significa poder ter um livro lido na língua majoritária da América e isso proporciona, sem dúvida, a troca de experiências com outras culturas, outras literaturas, outros leitores. Além disso, foi incrível descobrir o respeito e o interesse que os peruanos têm pelo que produzimos aqui. 

Ligados: Você necessita de alguma condição para tornar possível a escrita, como horário favorável ou atmosfera propícia à “inspiração”? 

Leila Guenther: Não, nada. Sou amadora, no bom e no mau sentido. Não tenho pressa de publicar. Não tenho método e na maioria das vezes escrevo apenas quando surge uma necessidade interior. 

Ligados: Ainda no campo literário, você participou de três antologias organizadas pelo escritor Rinaldo de Fernandes; são elas “Quartas histórias”, “Capitu mandou flores” e “50 versões de amor e prazer”. Poderia nos fornecer mais detalhes a respeito das mesmas? 

Leila Guenther: Em “Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa”, tentei criar a gênese de um dos personagens de “Grande Sertão: Veredas”; para “Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte”, escrevi “A outra causa”, uma releitura de “A causa secreta”. Era a história do sádico Fortunato contada de outro ponto de vista. Acho que foi o que mais gostei de escrever até hoje! Depois veio o volume “50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras”, com quatro contos meus, três deles inéditos. Por meio do erótico, tratei de questões como os clichês românticos, a literatura decadentista, a complementaridade das relações humanas etc. Escrever sob demanda é um grande desafio e sou grata ao Rinaldo por ter sempre me “desafiado” tanto! 

Ligados: Há cerca de sete anos, em entrevista ao jornalista Ricardo Lima, você disse que se interessava pelos textos prosaicos, mas que talvez não se atrevesse na elaboração de poemas. O que te levou a, de certa forma, mudar a opinião e experimentar da literatura em versos, caso do seu “Viagem a um deserto interior”, projeto contemplado no Programa Petrobras cultural de 2012? 

Leila Guenther: O que aconteceu é que nos últimos tempos senti uma necessidade de me expressar de outras formas, por outros meios. Mas também percebi que o conto, pelo menos o tipo de conto que escrevo, está mais próximo do poema do que do romance. Essa percepção me deu mais coragem de me embrenhar pela poesia. No fundo, o limite entre os gêneros pode ser algo tênue. 

Ligados: Que livro está em sua cabeceira no momento? 

Leila Guenther: “Zen Culture”, de Thomas Hoover, uma história do budismo e da influência de sua versão zen nas artes. 

Ligados: Gostaria de deixar algumas dicas para os novos escritores? 

Leila Guenther: Não sei se estou mais em posição de dar dicas ou de recebê-las, mas eu diria que, antes de ser escritor, é preciso ser leitor. 

Ligados: Possui projetos literários em andamento? 

Leila Guenther: Trabalho no livro de poemas selecionado pelo Programa Petrobras Cultural 2012, “Viagem a um deserto interior”, e num livro de contos. 

Ligados: Considerações finais. 

Leila Guenther: Gostaria de agradecer a Thiago Galdino pelo convite e também parabenizar a Equipe Ligados pela proposta tão bacana que vem desenvolvendo.



Autor: Thiago Jefferson - Criação: 26/07/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com

14 de jul de 2013

Curso de Medicina


A minha atual opinião quanto a apliação dos curso de medicina e porque eu concordo: http://youtu.be/dKFNffOaz9E via @youtube @felipobellini

Comentem por favor!

12 de jul de 2013

31ª Entrevista Literária - Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus nasceu em 1966 no município de Jequié, BA, e reside atualmente na capital do estado. É jornalista, escritor, poeta, editor e funcionário público federal. No campo literário, possui dezenas de trabalhos publicados, tanto no Brasil como no exterior, e idealizou, em 2005, um concurso de poesias que carrega o seu nome, certame este que já lançou cerca de 1200 textos de poetas de diversas nacionalidades. 

Preside o Colegiado Setorial de Literatura da Bahia e é Embaixador da Divine Académie Française des Arts, Lettres et Culture; Embaixador Universal da Paz; Membro da Academia de Letras do Brasil; Academia de Letras de Jequié; Academia de Cultura da Bahia; Academia de Letras de Teófilo Otoni; Academia Nevense de Letras; Ciências e Artes ANELCA; Poetas del Mundo; Fala Escritor; Confraria dos Artistas e Poetas pela Paz e da União Brasileira de Escritores.

O autor Valdeck Almeida de Jesus - Foto Divulgação

Ligados: Valdeck escritor. Valdeck poeta. Valdeck cidadão. Valdeck ator social... Em qual destas facetas você se sente mais realizado e próximo da sua essência, como ser humano, se é que é possível esta distinção entre suas atividades cotidianas?

Valdeck Almeida: Bem, no dia a dia não dá para separar os vários “eus”, nem dá para quantificar também quantas facetas posso ter. Sou pai, amigo, irmão, colega de trabalho, leitor, crítico, vendedor de livro, recitador etc. Claro que às vezes uma faceta se sobressai, outras vezes outra ou outras se sobrepõem e por aí vai. Mas eu me sinto realizado, mesmo, quando tenho a sensação de dever cumprido. E isso não tem nada a ver com traçar metas para o dia, para a semana, o mês. Eu procuro estar antenado e me inclino, naturalmente, para aquilo que me atrai, me sensibiliza. No geral sou introspectivo, observador, calado. Minha atividade mental é bem mais intensa quando estou à parte, na lateral. Talvez estar distanciado seja uma utopia, pois de alguma forma estamos envolvidos com o mundo ao redor. Mas eu me sinto confortável observando, refletindo. Não gosto de interferir, a menos que seja solicitado ou que tenha algo de positivo para falar. Quando interfiro, seja a pedido ou por força da circunstância, me sinto reconfortado, pois é nesse momento que coloco à prova o que eu penso e o que defendo na vida. Talvez seja nestas ocasiões em que eu me sinto realizado, talvez.

Ligados: Você disse certa vez que, na adolescência, morou em uma fazenda onde havia muitas revistas em quadrinhos na biblioteca da patroa; sempre que a mulher viajava, você entrava na residência por uma janela defeituosa, pegava dezenas delas e, depois de ler, voltava e as devolvia ao local de origem. Foi daí que surgiu o seu interesse pela criação literária, ou já rabiscava alguns textos na época da tal descoberta? 

Valdeck Almeida: A memória sempre nos trai. Não sei precisar exatamente quando e onde começou meu exercício de criação literária, de escrita propriamente dita. Na verdade, esta citação sobre as revistas em quadrinhos eu faço, também, no meu livro “Memorial do Inferno”. Em minha opinião todos nós escrevemos, sempre, seja no papel ou nos cantinhos da memória, da saudade, do viver diário. Por isso, acho que sempre escrevi, desde os momentos em que tomei consciência do mundo, da existência do meu pai, que sempre trabalhava fora e voltava com os bolsos cheios de doces para mim e para minha irmã Valquíria. Esta imagem, ou página da vida, está escrita em mim, e eu não sei precisar exatamente qual a data. Talvez não haja necessidade de mapear, de localizar no tempo um evento da vida. A vida em si já é um livro e, nesse sentido, estive sempre entre as linhas, palavras, sejam escritas ou faladas, proferidas ou simplesmente ouvidas ou ignoradas. Meu primeiro poema, este, sim, eu me lembro que foi aos doze anos, em homenagem a minha mãe. Mas eu já escrevia imagens na mente, já fantasiava com as estórias que minha mãe me contava, já me divertia inventando ser outra pessoa, sonhava que podia voar, que pedalava bicicleta entre as nuvens.

Aqui o poema:

Minha Mãe

Minha mãe criatura divina
Corpo de mulher, coração de menina
Mulher que ama, brinca e ensina
Menina que ri, chora e ilumina.

Ilumina o filho amado
Não o deixa sofrer
Tem sempre cuidado
Não o deixa morrer.

Sofre muito, se tortura
Para ao filho proteger
Se tem doença, ela cura
Se não tem, não deixa ter.

Dá a vida pelos filhos
Entrega-se para morrer
Se souber que este gesto
Fará o filho viver.

Ligados: Quantos e quais livros solos você já publicou? 

Valdeck Almeida: Já são dezesseis, ao todo. Alguns em coautoria:

1) “Heartache Poems. A Brazilian Gay Man Coming Out from the Closet”, New York, USA: iUniverse, 2004; Este livro reúne poesias de desabafo, muitas delas dedicadas a mulheres e amores secretos;

2) “Feitiço Contra o Feiticeiro”, São Paulo-SP: Scortecci, 2005; Livro de poesias;

3) “Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, São Paulo-SP: Scortecci, 2005; Conta a história da minha família, que enfrentou a fome e a miséria por mais de vinte anos e venceu. 100% da renda do livro foi doada às Obras Sociais Irmã Dulce;

“Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, São Paulo-SP: Giz Editorial, 2007; 20% da renda do livro foi doada às Obras Sociais Irmã Dulce;

“Memories from Brazilian Hell: The Saga of Almeida Family in the Garden of Éden”, Nova York (USA): iUniverse, 2008;

4) “Valdeck é Prosa, Vanise é Poesia”, Rio de Janeiro-RJ: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2007; Parceria com Vanise Vergasta;

5) “30 Anos de Poesia”, Rio de Janeiro-RJ: Câmara Brasileira do Jovem Escritor, 2008; reeditado pela Virtual Books, Pará de Minas-MG, 2009;

6) “Poemas de amor e outros temas”, Nova York (USA): Blurb, 2009;

7) “Poemas Di-Versos”, Corpos, Lisboa, Portugal, 2009; reeditado como “Armadilha – a verdadeira poesia brasileira”, São Paulo-SP: Clube de Autores, 2009;

“30 Anos de Poesia”, Pará de Minas-MG: Virtual Books, 2009;

8) “Minha alma nua” (Série Notáveis Poetas Brasileiros), Porto Alegre-RS: Real Academia de Letras, 2009;

9) “Recortes de uma vida: Reflexões e pensamentos”, São Paulo-SP: Clube de Autores, 2010;

10) “Amor e Paixão”, Coleção Scrivere, São Paulo-SP: Madio Editorial, 2010;

11) “A Kombi de prosa e poesia”, Pará de Minas-MG: Virtual Books, 2010; Parceria com Carlos Conrado;

12) “Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland”, New York (USA): iUniverse, 2010;

“30 Anos de Poesia e um mais um pouco”, São Paulo-SP: Delicatta, 2011;

13) “O MST e a Mídia. Uma análise do discurso sobre o Movimento dos Sem Terra na Mídia”, São Paulo-SP: Livrus, 2012; em parceria com Jobson Santana;

14) “Sim, sou gay. E daí? Desabafos do gay Alice no País das Maravilhas”, Lisboa, Portugal: Chiado Editora, 2012;

15) “Como Escrever, Publicar e Divulgar um Livro”, São Paulo-SP: Livrus, 2012;

16) “Brasil e África: laços poéticos”, Luanda (Angola): Editora Letras, 2013, em coautoria com Dya Kassembe, Walter S e Eduardo Quive, com prefácio de Pedro Silva;

Participo, ainda, de 90 antologias de poemas, contos, artigos etc, organizadas no Brasil e no exterior.

Ligados: Dentre tantos, qual deles é o seu favorito e por quê?

Valdeck Almeida: O “Memorial do Inferno” é, sem dúvida, o meu predileto, pois é parte de minha memória, das memórias de minha família e amigos. Nesta obra eu relato tudo o que me lembrei da experiência de nascer e viver numa família pobre, cujo único motivo para se manter unida foi o amor devotado de minha mãe.

Ligados: A sua obra de estreia, “Heartache Poems – A Brazilian Gay Coming Out from the Closet”, narra a história de seus amores (por vezes proibidos aos olhos da sociedade) e externaliza os empecilhos que você enfrentou ao assumir (e defender) sua orientação sexual. Desta forma, você acredita que este volume, embora se tratando de um “livro-confissão”, pode aconselhar e incentivar as pessoas a se libertarem dos seus medos e preconceitos?

Valdeck Almeida: Eu acho que ninguém tem resposta pronta para a vida, mesmo porque cada um tem sua própria existência, com medos, traumas, sonhos e idealizações. Mas, na medida em que as emoções humanas são, essencialmente, sempre as mesmas, um relato de alguém anônimo ou famoso, pode, com certeza, servir de consolo ou de barreira para quem ouvir ou ler este relato. O livro “Heartache Poems” traz textos de minha experiência peculiar, dos meus amores ou desejos, muitos deles vividos apenas no sonho, no desejo, no mundo das ideias. Relatam frustrações, vontades, fugas da realidade, busca por um consolo e um sonho. Foram escritos em minha adolescência e não refletem, necessariamente, conselhos ou indicações para serem seguidos. Mas, como disse anteriormente, por se tratar de espelhos de emoções, pode servir para inspirar até outros poetas ou, mesmo, para aumentar ou para diminuir o preconceito. Vai depender muito do enfoque que o leitor dê à obra.

Ligados: Geralmente o escritor, ao compor seus trabalhos, aborda problemas que muitos calam em silêncio. Assim, revela verdades e denuncia o que enxerga, para que os outros aprendam a lidar com coragem frente às adversidades sociais. Para você, quais circunstâncias motivam a produção literária?

Valdeck Almeida: O que motiva minha produção é a utopia. Vivemos num mundo tão artificial, em que emoções, sorrisos, verdades e mentiras são construídos e reconstruídos a cada instante, ao prazer dos ventos. Tudo é regrado, medido, encaixotado. As coisas precisam ‘fazer sentido’, ter traduções, explicações racionais. É tudo muito chato e neurotizante. Se falarmos em segurança pública, não dá coragem nem de sair de casa. Educação, saúde e tudo o mais, sempre é um caos, as demandas nunca são atendidas. Vivemos, todos, numa luta insana e infrutífera pela satisfação dos sonhos e das divagações. É uma loucura coletiva, alimentada por leis, regulamentos, vigilantes dessas regulações. Até para comer, nascer, morrer há regra a cumprir. Acho que a literatura, como toda arte, no meu caso, é utilizada como válvula de escape, fuga dessa neurose toda. Se eu parar de escrever ou ir a recitais poéticos e lançamentos de livros, por exemplo, o que me resta? Noticiários de TV, comerciais nos outdoors me convidando a ser feliz se comprar um novo modelo de telefone. A renda mundial é concentrada nos bolsos de poucos. Se não posso nem quero sair matando gente nem fazendo ‘justiça’ com as próprias mãos, me refugio na arte, vou ao cinema, assisto a uma peça de teatro, me iludo na carreira literária. Se não for assim, enlouqueço. E, se o tempero da vida for, justamente, este caos que nunca é resolvido, que bom para os artistas, que sempre terão matéria prima para seu trabalho utópico.

Ligados: Em 2005 você lançou o “Prêmio Valdeck Almeida de Jesus de Poesia”, certame este que já conta com mais de dez edições e que dá (e já deu) a muitos poetas inéditos oportunidades para divulgar o seu material. Fale-nos um pouco sobre o concurso, e como surgiu a ideia do mesmo.

Valdeck Almeida: Meu primeiro poema só publiquei em 1984. Para isso, precisei vender o fogão novo que aguardava a compra de um botijão. Nessa época, a prefeitura de Jequié me prometeu publicar um livro solo, de poemas, chamado “Feitiço Contra o Feiticeiro”. Foram anos de espera inútil, até que tomei consciência que o sonho não seria realizado. Em 2005, já morando em Salvador, consegui publicar este livro e já conhecia outros poetas, cujas histórias de vida e sonhos literários eram muito similares aos meus. Para dar oportunidade a estes camaradas das letras, inventei este prêmio literário. Este concurso tem me dado muita felicidade, pois, além de conhecer gente do mundo todo, através dele eu consigo, em paralelo, divulgar meu trabalho e fazer parcerias com pessoas e entidades ligadas à literatura. Já foram catorze livros, com mais de 1200 poetas brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos, suíços, americanos e de tantas outras nacionalidades. O concurso já me levou a viagens que eu jamais tinha planejado. É um sucesso, graças à equipe que me ajuda na seleção, ao apoio de amigos para os lançamentos e à confiança que os poetas depositam no meu trabalho.

Ligados: Que livro está em sua cabeceira no momento?

Valdeck Almeida: Eu tenho vários livros na cabeceira. Infelizmente o tempo não me permite ler todos, talvez de alguns eu consiga ler apenas poucas páginas. Mas o livro que acabei de ler foi “Os encantos do sol”, de Mayrant Gallo, um romance que se passa em Salvador-BA. Excelente indicação, pelo refinamento e respeito à língua portuguesa, pelas tiradas sarcásticas e humor de primeira linha que o autor imprime ao texto. Uma história envolvente e surpreendente. Estou folheando e lendo, de Kátia Franco, “A sonoridade da surdez”, que narra a experiência de uma mãe cuja filha nasce surda. A surdez de Claudinha revoluciona a vida da mãe e cria uma trajetória de tristeza, aprendizado, renúncias e conquistas para a família.

Ligados: Projetos e planos?

Valdeck Almeida: Sempre alerta (risos). Na verdade estou assentando poeira, me aquietando, me dedicando mais a projetos pessoais e familiares. Presido o Colegiado Setorial de Literatura, da Secretaria Estadual de Cultura da Bahia, bem como participo de recitais, projetos literários e edição de alguns livros meus e de amigos. Enquanto houver sonho permaneço caminhando, rumo ao horizonte da utopia.

Ligados: Gostaria de deixar dicas para aqueles que estão iniciando no campo literário? 

Valdeck Almeida: Bem. Eu sou persistente e insistente. Minha mãe tinha um ditado: “se igreja não quer, cemitério quer”. Pra mim, sempre vai haver um leitor para meu texto, mesmo que apenas um. Não escrevo para o mercado, mas não o desprezo totalmente. Enquanto a independência total não vem, vou construindo meus castelos de sonhos e nuvens. Tenho um livro cujo título é “Como escrever, publicar e divulgar um livro”, com várias dicas. Mas a principal delas é acreditar no que faz e se profissionalizar, se especializar no que gosta. Caminhar, sempre, e nunca desistir. O sucesso pode ou não vir com o tempo.

Ligados: Considerações finais.

Valdeck Almeida: Desejo que as pessoas não parem de sonhar. A realidade é muito dura para se encarar sem olhos de sonhadores.


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 12/07/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com