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23 de ago de 2013

34ª Entrevista Literária - Sacolinha

Ademiro Alves, ou Sacolinha, como é mais conhecido, nasceu em 1983 na cidade de São Paulo, e reside atualmente em Suzano. Formado em Letras pela Universidade de Mogi das Cruzes, é escritor, autor dos livros “Graduado em marginalidade” (Edição independente, 2005. 2ª edição pela Confraria do Vento, 2009); “85 letras e um disparo” (Editora Ilustra, 2006. 2ª edição pela Global, 2007); “Peripécias de minha infância” (Editora Nankin, 2010); “Estação terminal” (Editora Nankin, 2010); “Manteiga de cacau” (Editora Ilustra, 2012) e “Como a água do rio” (Editora Aeroplano, 2013). Trabalhou, por oito anos, na secretaria de cultura do município de Suzano, onde desenvolveu inúmeros projetos de incentivo à leitura e de divulgação de novos escritores, com destaque para o “1º Salão Internacional do Livro de Suzano”. Atualmente tem viajado pelo país fazendo palestras e ministrando oficinas, principalmente em lugares vulneráveis, como cadeias, penitenciárias, favelas, morros e associações de moradores. Desenvolve ainda uma palestra por semana nas escolas públicas do estado de São Paulo.

O autor Sacolinha - Foto Divulgação

Ligados: Quem é o Sacolinha?

Sacolinha: Tenho 29 anos, nasci na cidade de São Paulo e sou formado em Letras pela Universidade de Mogi das Cruzes. Escritor, autor de romances e livros de contos. Em minha trajetória já estive em programas de televisão como o do Jô Soares (TV Globo), Provocações, Metrópolis e Manos e Minas (TV Cultura). Ganhei vários prêmios por meus livros e projetos. Desenvolvo ainda uma palestra por semana nas escolas públicas do estado de São Paulo.

Ligados: O Jornal do Unificados publicou, tempos atrás, uma entrevista contigo intitulada “O homem que roubava livros”. De onde surgiu este título, e qual a relação do mesmo com o início do seu interesse literário? 

Sacolinha: É que no inicio, assim que eu comecei a ler, eu pegava escondidos os livros do meu tio, que não queria me emprestá-los. Mas eu acabava gostando dos livros e não os devolvia. Daí o título de ladrão de livros. Mas, como no Brasil ninguém rouba, desvia, então eu nunca roubei livros, eu desviei.

Ligados: Em 2002 você começou a esboçar suas ideias em papel, tendo lançado, três anos mais tarde, a primeira obra, “Graduado em marginalidade”. Passado pouco mais de uma década, seguiram outros cinco livros, de gêneros variados. Poderia fazer uma síntese a respeito deles? 

Sacolinha: São 6 livros até agora:

GRADUADO EM MARGINALIDADE – Romance Urbano Contemporâneo que narra o amadurecimento precoce do jovem VANDER e toda sua trajetória de vida, até atingir o degrau máximo da marginalidade. No final, como todo graduado recebe um diploma, qual seria, então, o diploma de um graduado na marginalidade?

85 LETRAS E UM DISPARO – Global Editora: Livro de Contos que versam sobre variados temas da sociedade, inclusive aqueles que muitos insistem em não debater.

PERIPÉCIAS DE MINHA INFÂNCIA – Editora Nankin: Romance Infanto-Juvenil que narra a infância e a adolescência de ARTUR, personagem de família pobre, criativo e viciado em felicidade.

ESTAÇÃO TERMINAL - Editora Nankin: Romance Contemporâneo que narra o dia a dia de um terminal de metrô, terminal no sentido em que os personagens encerram a sua vida ora se acomodando, ora morrendo.

MANTEIGA DE CACAU – Editora Ilustra: Livro de contos que tratam das crises e dos conflitos do universo masculino.

COMO A ÁGUA DO RIO – Editora Aeroplano: Biografia que narra a trajetória de vida e literária do escritor Sacolinha até os 28 anos de idade.

Ligados: E quanto ao pseudônimo Sacolinha? 

Sacolinha: Era um apelido que ganhei quando trabalhava como cobrador de lotação. Depois que me tornei escritor acabou que o apelido virou pseudônimo, já que todos me conheciam assim.

Ligados: O tipo de literatura que você vem desenvolvendo, juntamente com autores como Rodrigo Ciríaco e Sérgio Vaz é, por vezes, rotulada de “Marginal” e/ou “Periférica”. Embora você rejeite este estereótipo, concorda que muitos jovens começaram a ler pela identificação com o movimento e o termo que o nomeia? 

Sacolinha: Claro. Não só concordo como sou o entusiasta dessa ideia. Sou um incentivador da leitura, estou e vou a lugares que muitos escritores e acadêmicos não vão nem sob ameaças de morte. Portanto, toda e qualquer ferramenta de incentivo à leitura é válida. Essas vertentes da literatura são uma referência pra molecada da periferia, que veem a literatura como algo chato e disciplinar. Quando ele vê um cara como ele, negro, rapper ou da favela, fazendo uma literatura com um nome familiar, marginal, periférica, maloqueira, negra e etc., a identificação é imediata. Logo ele vira leitor, e muitas vezes escritor.

Não creio que isso seja um estereótipo. Para mim é mais um rótulo, e já tenho rótulos demais. Também não tenho problemas com isso. Só não rotulo o que eu escrevo, mas os leitores, jornalistas e acadêmicos podem rotular como quiserem. Eu é que não saio dizendo que faço literatura A ou B.

Ligados: Como era o seu trabalho na Secretaria de Cultura de Suzano? Foi uma boa experiência, tanto pessoal como profissional? 

Sacolinha: Nos oito anos que passei lá como Coordenador Literário creio que consegui despertar toda uma cidade para os livros e para a literatura. Surgiram leitores e escritores, muitos escritores. Alguns já existiam, mas somente dentro de suas casas. Já outros foram nascendo, através das oficinas de criação literária, dos saraus e das provocações de escritores que eu trouxe para a cidade. Encerrei minha participação naquela secretaria com a realização do 1º Salão Internacional do Livro de Suzano, um grandioso evento em torno do livro, dos escritores e das pessoas.

Ligados: O que anda lendo?

Sacolinha: José Saramago, Guimarães Rosa e José Lins do Rêgo.

Ligados: Que conselho você daria àqueles que estão começando o processo de escrita?

Sacolinha: Leia! A única fonte legítima de ensino e de inspiração para um escritor são os livros que ele lê. Não acredito em autor que não é antes um bom leitor.

Ligados: Quais os seus planos para o futuro? Algum projeto em andamento? 

Sacolinha: Estou tentando me dedicar ao meu novo romance, mas as palestras não deixam.

Ligados: Gostaria de encerrar esta entrevista com algum comentário?

Sacolinha: Se quiserem saber mais sobre meus projetos, acessem: www.sacolagraduado.blogspot.com.



Autor: Thiago Jefferson - Criação: 23/08/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com

9 de ago de 2013

33ª Entrevista Literária - Fabiano Calixto

Fabiano Calixto nasceu em 1973 no município de Garanhuns, Pernambuco, e reside atualmente em São Paulo. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada, é ainda escritor, poeta, tradutor e professor, tendo publicado os livros “Algum” (edição do autor, 1998); “Fábrica” (Alpharrabio Edições, 2000); “Um mundo só para cada par” (em parceria com os poetas Kleber Mantovani e Tarso de Melo, pela Alpharrabio Edições, 2001); “Música possível” (CosacNaify/ 7 Letras, 2006); “Sangüínea” (finalista do Prêmio Jabuti de 2008, lançado pela Editora 34, 2007); “Pão com bife” (Edições SM, 2007) e “A canção do vendedor de pipocas” (7 Letras, 2013). Traduz, no momento, uma antologia de Benjamín Prado e outra de Kenneth Rexroth, além de editar a revista digital de arte e política “O almanaque lobisomem”. Sua nova coletânea de poemas, intitulada “Nominata morfina”, sairá em breve.

O autor Fabiano Calixto - Foto Divulgação

Ligados: A título de informação, quem é Fabiano Calixto? 

Fabiano Calixto: Sou um escritor pernambucano criado em Santo André (SP) que vive atualmente em São Paulo. Sou mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Escrevi seis livros de poesia – “Algum” (edição do autor, 1998), “Fábrica” (Alpharrabio Edições, 2000), “Um mundo só para cada par” (Alpharrabio Edições, 2001), “Música possível” (CosacNaify/7Letras, 2006), “Sangüínea” (Editora 34, 2007) – este finalista do Prêmio Jabuti de 2008 na Categoria Melhor Livro de Poesia –, e “A canção do vendedor de pipocas” (7Letras, 2013). Um livro de poesia infantil, “Pão com bife” (Edições SM, 2007). Escrevi crítica literária, organizei livros, editei revistas de arte, traduzi poetas que amo. Atualmente edito a revista digital de arte e política “O Almanaque Lobisomem”. Meu novo livro de poemas, intitulado “Nominata morfina”, sairá em breve. Estou terminando meu primeiro romance, intitulado “Meu coração é o fim do mundo”, e um livro de contos. Gosto de rock’n’roll, cachoeira, chuva, cerveja, pizza & prosa com amigos. Sou anarquista. Pretendo ingressar no doutorado e morar em Oslo por alguns anos.

Ligados: Quando surgiu o seu interesse pela poesia, e que relação ela tem com a música, de uma forma generalizada?

Fabiano Calixto: Na verdade, acho que houve momentos diferentes de curtição de poesia em minha vida. Meu pai me ensinou o primeiro poema – a parlenda “hoje é domingo”; minha mãe ouvia Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Odair José, Roberto Carlos, Evaldo Braga, Paulo Sérgio, todos muito cheios de poesia. Nesta mesma época, ainda muito criança, eu ouvia a Coleção Disquinho, que foi lançada no Brasil nos anos 60 e cruzou décadas com histórias clássicas e universais, acompanhadas de músicas compostas por João de Barro e arranjos orquestrais de Radamés Gnatalli (sou muito fã de ambos). Aquelas histórias acordaram meus ouvidos para a melodia. Depois, o tempo passando, fui me interessando por outras coisas, como heavy metal, histórias em quadrinho e, claro, futebol. Lia tudo a respeito. Mais adiante, quando fundei uma banda de thrash metal (a mais barulhenta do ABC paulista), fui colecionando a poética dos bares & da noite, a poética da vida. Depois, quando retornei à escola (havia parado e voltado mil vezes), fui descobrindo a poesia dos manuais escolares – os românticos me interessaram logo de cara. Junte isto com audições diárias de compositores como John Lennon, Bob Dylan, Neil Young, Chico Buarque – cujas letras me fascinam até hoje. Pronto, foi aí que comecei a me interessar profundamente por poesia.

Ligados: Em suas poesias notam-se os centros urbanos, bem como seus moradores e a geografia das cidades como características mais presentes, além de abordarem a solidão do homem em meio ao crescimento populacional intenso e posterior surgimento das metrópoles. Por qual motivo você se utiliza deste panorama? 

Fabiano Calixto: A cidade me interessa, a cidade é minha tara. Gosto de falar sobre o espaço urbano. É uma reflexão intensa e também dolorida. A cidade acalenta e dói.

Ligados: Recentemente você lançou, pela editora “7 Letras”, a obra “A canção do vendedor de pipocas”, que reúne parte de seu acervo poético criado entre 1998 e 2012. Qual o significado deste título? Aproveitando, fale-nos um pouco sobre esta produção. 

Fabiano Calixto: O título significa a cidade, o mundano na cidade, a parte que me interessa da cidade, a parte do estouro, da transformação. O livro é uma reunião dos poemas que fiz e ainda gosto muito. Reorganizei tudo e coloquei nesta antologia.

Ligados: Em paralelo às várias manifestações populares por todo o Brasil que, inicialmente, surgiram para contestar os aumentos nas tarifas dos transportes públicos e, em seguida, passaram a abranger uma infinidade de temas, surgiu à coletânea “Vinagre – Antologia de Poetas Neobarracos”. Qual o principal propósito que levou à criação do livro, e em que momento surgiu esta ideia? 

Fabiano Calixto: A antologia surgiu como gesto de solidariedade às manifestações que aconteceram (e continuam acontecendo) pelo Brasil todo em junho passado. A ideia nasceu de uma prosa com os poetas Ana Rüsche e Pedro Tostes. A partir daí, fiz uma convocação pública no facebook e muita gente topou participar. Acho que foi muito legal e cumpriu sua função, participando dos tensos processos de transformação por quais passa o país.

Ligados: Gostaria de deixar alguma mensagem aos aspirantes à poesia? 

Fabiano Calixto: Leia muito. E depois, leia mais. Desconfie de todo e qualquer sujeito que diga que a poesia é isto ou aquilo, porque a poesia não é isto nem aquilo, mas pode ser isto ou aquilo. Desconfiar sempre. E ler o máximo que puder.

Ligados: O que anda lendo na atualidade? 

Fabiano Calixto: Ando lendo teoria literária e anarquista. Poesia sempre, alguma coisa aqui e ali – atualmente Manuel de Freitas e Heriberto Yépez. Lendo também “Los cuatro elementos”, de C.E. Feiling. Relendo “Maus”, de Art Spiegelman.

Ligados: Sobre o seu livro de poemas inédito, “Nominata Morfina”, quais assuntos são abordados? Poderia nos adiantar algo a respeito? Além deste, há outros projetos em andamento? 

Fabiano Calixto: São muitos assuntos no livro novo. No geral, o pasmo diante do mundo mancha todos os poemas. É um livro sobre minhas reflexões sobre a vida. Fora isso, há os projetos de prosa de ficção, que disse acima, mais algumas parcerias de tradução com amigos que amo e com os quais partilho algumas paixões (Benjamín Prado, com Eduarda Rocha; e Kenneth Rexroth, com Reuben da Cunha Rocha), há também uma HQ em preparo com Diego de Sousa. Além disso, “O Almanaque Lobisomem”, que será uma publicação trimestral de arte.

Ligados: Desejar encerrar esta entrevista com mais algum comentário?

Fabiano Calixto: Poesia, meus caros amigos, poesia!



Autor: Thiago Jefferson - Criação: 09/08/2013 - Objetivo: www.ligadosfm.com